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Quem não se lembra daquelas belas passagens do Êxodo!
Libertação, destruição dos egípcios,
passagem do Mar Vermelho, Leis de Deus, quarenta anos no deserto
e a entrada na Terra Prometida. Os textos bíblicos convidam
o leitor a acompanhar o caminho feito pelos israelitas. Porém,
sempre esquecemos daqueles que ficaram: o que aconteceu ao povo
egípcio com todos aqueles castigos que lhe foram impostos
por culpa de seus governantes? Os textos bíblicos nada falam!
Diante desta constatação
ficamos perplexos, pois, nos perguntamos: que Deus é este
que destrói um povo numeroso em prol de um pequeno grupo
eleito? Mas será este o real convite que a teologia judaica,
através dos eventos da libertação do Egito,
está fazendo aos seus leitores? Quem são os egípcios?
E, quem são os leitores a quem se destinam tais textos? Quando
respondermos a estas questões teremos a chave para entender
o porquê do aparente esquecimento dos egípcios e do
convite para caminhar com Moisés e os israelitas.
Faraó versus Moisés
O duelo entre Moisés
e o Faraó se inicia, convencendo o leitor de que o Deus dos
israelitas é o verdadeiro Deus e que realmente tem poder
e quer libertá-los da escravidão, por intermédio
de Moisés (Ex. 1-4). O primeiro encontro entre Moisés
e o Faraó ocorrerá somente no capítulo 5 do
livro do Êxodo, onde o Faraó demonstra não conhecer
o Deus de Moisés: "Quem é o Senhor para que eu
escute a sua voz e deixe partir Israel? Não conheço
o Senhor e não quero deixar partir." (Ex 5,2). Contrapondo-se
à pretensão do Faraó, Moisés apresenta
o projeto de Deus: que os israelitas saiam para cultuar ao Senhor
(Ex 5,3). Assim, o Faraó passa a medir forças com
o Senhor aumentando a escravidão sobre os israelitas (Ex
5,4-19), que por sua vez, se revoltam contra Moisés e o Senhor.
A posição israelita reforça as pretensões
do Faraó, o qual não ouvirá Moisés (Ex
6,10-12). Afinal, nem os israelitas ouvem o Senhor (Ex 6,9.12).
O fracasso da missão
de Moisés em 7,1-7 se apresenta como parte dos planos de
Deus: o Faraó é usado por Deus (Ex 7,3) para a manifestação
de sua autoridade: "Estenderei minha mão contra o Egito
e com autoridade farei sair meus exércitos, meu povo, os
filhos de Israel, para fora da terra do Egito. Então os egípcios
conhecerão que eu sou o Senhor, quando estender minha mão
contra o Egito; e farei sair do meio deles os filhos de Israel."
(Ex 7, 4-5). Em Ex 7,8-13, a cobra que surge do bastão de
Moisés, representando a força de Deus, engole todos
os poderes e forças dominadoras do mal, que se pretendem
absolutas. Estas duas passagens prefiguram o fracasso das pretensões
do Faraó, que ocorrerá em Ex 12,29-14,31, e são
as primeiras ações divinas contra o Faraó que
continuarão acontecendo no episódio das dez pragas.
Até à quarta
praga podemos perceber que o Faraó, apesar de alguns sinais
de fraqueza, aparece de coração endurecido (Ex 7,13.22;
8,15) ou obstinado (Ex 7,11;8,28; 9,7). Ambas as palavras significam
que o Faraó continua lutando e conduzindo, com suas próprias
forças, sua vida, suas decisões; mas aos poucos o
falso-deus vai caindo.
Na quinta praga (mortandade
dos animais), vemos que o Faraó apenas manda verificar e
constata que nenhum dos rebanhos dos filhos de Israel haviam sido
atingidos (Ex 9,6-7), porém, ainda continua lutando. Quando
entramos na sexta praga (furúnculos), voltam à cena
os magos, que não podem subsistir diante do poder divino:
é a aniquilação total das pretensões
de poderes divinos do Faraó (Ex 9,11). Quando o Faraó
permite a saída, nos deparamos com uma virada de cena: é
o Senhor quem passa a dominar o coração do Faraó:
"O Senhor, porém, endureceu o coração
do Faraó ..." (Ex 9,12). Já na sétima
praga (granizo), a situação se inverte em relação
ao que vinha acontecendo: agora são os egípcios que
começam a aderir a Deus (Ex 9,20) e, na oitava praga (gafanhotos)
imploram ao Faraó que deixe os israelitas saírem (10,7).
Na oitava e nona praga (trevas) o Faraó está tão
fragilizado que o próprio Moisés consegue convencê-lo
da saída. O esquema básico é: o Faraó
permite a saída de uma parte dos israelitas; Moisés
contesta e o Faraó aceita a contestação; mas
o Senhor endurece-lhe o coração. Assim, o Faraó
chega, na última praga, totalmente debilitado e o Senhor
consegue ridicularizá-lo.
Mas a humilhação
do Faraó não acabou aqui! A décima e última
praga é definitiva e irreversível (Ex 11,1-12,37).
Aqui, Moisés anuncia ao Faraó a praga (a morte dos
primogênitos) e a humilhação (o Faraó
verá os egípcios implorando a saída de Moisés
do país): "Então, todos os servos aqui presentes
descerão ao teu encontro e se prosternarão diante
de mim, dizendo: ‘Saí, tu e todo este povo que te acompanha’.
Depois disto eu sairei." (Ex 11, 8) Com estas palavras, Moisés
reverte toda a dinâmica apresentada no texto até aqui:
antes era o Faraó quem permitia aos israelitas quando poderiam
ou não sair; agora é o próprio Moisés
quem estabelece um prazo e uma condição para sua saída:
quando se prostrarem e implorarem-na. O Senhor endurece o coração
do Faraó que não deixa os filhos de Israel partirem
(Ex 11,9-10). Desta vez quem executa a praga é o próprio
Senhor que passará pelo Egito matando todos os primogênitos
egípcios.
Após a última praga
temos: a saída dos israelitas do Egito (Ex 12, 37ss), a passagem
do Mar Vermelho, onde o Faraó e suas tropas morrem afogados
(Ex 14), a caminhada pelo deserto, o recebimento das leis e do projeto
da comunidade reunida ao redor do Templo e a entrada na Terra Prometida
(Js).
Optar por Moisés é questão de identidade
e de vida
Os textos sagrados da tradição
do Êxodo foram escritos no final do sexto século e
no início do quinto, a.C., logo depois do fim do exílio
babilônico. Com a queda da Babilônia ante o Império
Persa, os exilados poderiam retornar para Palestina e reconstruir
seu país. Muitos judeus, após meio século de
estadia na Babilônia, não queriam mais voltar. Foi
neste contexto que os sacerdotes judaicos começaram a produzir
os textos bíblicos para convencê-los a retornarem.
Os textos do conjunto dos livros
bíblicos, de Êxodo a Josué, localizam o evento
do Êxodo no país do Egito. A descrição
do acontecido é perfeita a ponto de nos convencer. Mas, por
que os sacerdotes judaicos, literalmente, utilizam o Egito? Justamente
porque os textos visam convencer os judeus do exílio que
não querem retornar para a Palestina a voltarem. Eles gostaram
de viver na Babilônia. Dessa forma, usar a depreciação
da Babilônia como forma de convencimento não surtiria
nenhum efeito, pois estavam se dando bem lá. Entretanto,
utilizar o Egito se coaduna com dois elementos importantes: a) o
Egito sempre foi inimigo da Babilônia e logicamente os judeus
do exílio também não gostavam daquele país;
b) mostrar que, no passado, Israel já passara por situações
piores e, quando confiaram em Deus, foram conduzidos e protegidos
pelo próprio Deus. Assim, o Êxodo é simbólico
e representa a volta dos exilados para suas terras; bem como o Egito
é símbolo da Babilônia.
Eis o contexto histórico
para compreendermos o duelo entre Moisés e Faraó.
Essa luta não deve ser entendida como um evento histórico,
como algo que aconteceu de fato, mas, como um texto que teologiza
a História de Israel.
Moisés, símbolo dos
judeus que saíram da Babilônia, traz consigo um novo
projeto de sociedade, apresentado e avalizado pelo Deus judaico:
uma nação santa reunida ao redor do templo, sob os
sacerdotes. Por isso, Deus está lutando junto com os judeus
que saem do "Egito" (Babilônia).
Assim, podemos responder as questões
levantadas no início deste artigo: Como ficaram e quem são
os egípcios, e para quem se endereçam estes textos?
A resposta é única: aos judeus que resistem em retornar
para a Palestina quando termina o exílio babilônico.
Moisés é convite para
que cada judeu opte, radicalmente, pela sua cultura, suas tradições,
seu povo, sua terra (Palestina) e SEU DEUS, afogando e matando,
completamente o Faraó (cultura babilônica) que existe
dentro de cada um.
Jesus, encarnação e
vivência do Projeto de Deus, muitos anos depois, fará
o mesmo convite que se estendeu por toda a História até
os dias atuais: renascer do Espírito. Ou seja, para que o
Reinado de Deus aconteça é necessário assumi-lo
radicalmente no cotidiano. O convite da teologia judaica e de Jesus,
continua para nós hoje: mate o Faraó que está
dentro de você para que o Moisés em você, que
quer entrar na dinâmica do Reinado de Deus, possa viver. |
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