UMA LUTA DE DEUSES
"Ivanir Signorini / Flávio Lima / Vanderlei Roque Signorini"

      Quem não se lembra daquelas belas passagens do Êxodo! Libertação, destruição dos egípcios, passagem do Mar Vermelho, Leis de Deus, quarenta anos no deserto e a entrada na Terra Prometida. Os textos bíblicos convidam o leitor a acompanhar o caminho feito pelos israelitas. Porém, sempre esquecemos daqueles que ficaram: o que aconteceu ao povo egípcio com todos aqueles castigos que lhe foram impostos por culpa de seus governantes? Os textos bíblicos nada falam!
      Diante desta constatação ficamos perplexos, pois, nos perguntamos: que Deus é este que destrói um povo numeroso em prol de um pequeno grupo eleito? Mas será este o real convite que a teologia judaica, através dos eventos da libertação do Egito, está fazendo aos seus leitores? Quem são os egípcios? E, quem são os leitores a quem se destinam tais textos? Quando respondermos a estas questões teremos a chave para entender o porquê do aparente esquecimento dos egípcios e do convite para caminhar com Moisés e os israelitas.
Faraó versus Moisés
       O duelo entre Moisés e o Faraó se inicia, convencendo o leitor de que o Deus dos israelitas é o verdadeiro Deus e que realmente tem poder e quer libertá-los da escravidão, por intermédio de Moisés (Ex. 1-4). O primeiro encontro entre Moisés e o Faraó ocorrerá somente no capítulo 5 do livro do Êxodo, onde o Faraó demonstra não conhecer o Deus de Moisés: "Quem é o Senhor para que eu escute a sua voz e deixe partir Israel? Não conheço o Senhor e não quero deixar partir." (Ex 5,2). Contrapondo-se à pretensão do Faraó, Moisés apresenta o projeto de Deus: que os israelitas saiam para cultuar ao Senhor (Ex 5,3). Assim, o Faraó passa a medir forças com o Senhor aumentando a escravidão sobre os israelitas (Ex 5,4-19), que por sua vez, se revoltam contra Moisés e o Senhor. A posição israelita reforça as pretensões do Faraó, o qual não ouvirá Moisés (Ex 6,10-12). Afinal, nem os israelitas ouvem o Senhor (Ex 6,9.12).
       O fracasso da missão de Moisés em 7,1-7 se apresenta como parte dos planos de Deus: o Faraó é usado por Deus (Ex 7,3) para a manifestação de sua autoridade: "Estenderei minha mão contra o Egito e com autoridade farei sair meus exércitos, meu povo, os filhos de Israel, para fora da terra do Egito. Então os egípcios conhecerão que eu sou o Senhor, quando estender minha mão contra o Egito; e farei sair do meio deles os filhos de Israel." (Ex 7, 4-5). Em Ex 7,8-13, a cobra que surge do bastão de Moisés, representando a força de Deus, engole todos os poderes e forças dominadoras do mal, que se pretendem absolutas. Estas duas passagens prefiguram o fracasso das pretensões do Faraó, que ocorrerá em Ex 12,29-14,31, e são as primeiras ações divinas contra o Faraó que continuarão acontecendo no episódio das dez pragas.
       Até à quarta praga podemos perceber que o Faraó, apesar de alguns sinais de fraqueza, aparece de coração endurecido (Ex 7,13.22; 8,15) ou obstinado (Ex 7,11;8,28; 9,7). Ambas as palavras significam que o Faraó continua lutando e conduzindo, com suas próprias forças, sua vida, suas decisões; mas aos poucos o falso-deus vai caindo.
        Na quinta praga (mortandade dos animais), vemos que o Faraó apenas manda verificar e constata que nenhum dos rebanhos dos filhos de Israel haviam sido atingidos (Ex 9,6-7), porém, ainda continua lutando. Quando entramos na sexta praga (furúnculos), voltam à cena os magos, que não podem subsistir diante do poder divino: é a aniquilação total das pretensões de poderes divinos do Faraó (Ex 9,11). Quando o Faraó permite a saída, nos deparamos com uma virada de cena: é o Senhor quem passa a dominar o coração do Faraó: "O Senhor, porém, endureceu o coração do Faraó ..." (Ex 9,12). Já na sétima praga (granizo), a situação se inverte em relação ao que vinha acontecendo: agora são os egípcios que começam a aderir a Deus (Ex 9,20) e, na oitava praga (gafanhotos) imploram ao Faraó que deixe os israelitas saírem (10,7). Na oitava e nona praga (trevas) o Faraó está tão fragilizado que o próprio Moisés consegue convencê-lo da saída. O esquema básico é: o Faraó permite a saída de uma parte dos israelitas; Moisés contesta e o Faraó aceita a contestação; mas o Senhor endurece-lhe o coração. Assim, o Faraó chega, na última praga, totalmente debilitado e o Senhor consegue ridicularizá-lo.
       Mas a humilhação do Faraó não acabou aqui! A décima e última praga é definitiva e irreversível (Ex 11,1-12,37). Aqui, Moisés anuncia ao Faraó a praga (a morte dos primogênitos) e a humilhação (o Faraó verá os egípcios implorando a saída de Moisés do país): "Então, todos os servos aqui presentes descerão ao teu encontro e se prosternarão diante de mim, dizendo: ‘Saí, tu e todo este povo que te acompanha’. Depois disto eu sairei." (Ex 11, 8) Com estas palavras, Moisés reverte toda a dinâmica apresentada no texto até aqui: antes era o Faraó quem permitia aos israelitas quando poderiam ou não sair; agora é o próprio Moisés quem estabelece um prazo e uma condição para sua saída: quando se prostrarem e implorarem-na. O Senhor endurece o coração do Faraó que não deixa os filhos de Israel partirem (Ex 11,9-10). Desta vez quem executa a praga é o próprio Senhor que passará pelo Egito matando todos os primogênitos egípcios.
      Após a última praga temos: a saída dos israelitas do Egito (Ex 12, 37ss), a passagem do Mar Vermelho, onde o Faraó e suas tropas morrem afogados (Ex 14), a caminhada pelo deserto, o recebimento das leis e do projeto da comunidade reunida ao redor do Templo e a entrada na Terra Prometida (Js).
Optar por Moisés é questão de identidade e de vida
       Os textos sagrados da tradição do Êxodo foram escritos no final do sexto século e no início do quinto, a.C., logo depois do fim do exílio babilônico. Com a queda da Babilônia ante o Império Persa, os exilados poderiam retornar para Palestina e reconstruir seu país. Muitos judeus, após meio século de estadia na Babilônia, não queriam mais voltar. Foi neste contexto que os sacerdotes judaicos começaram a produzir os textos bíblicos para convencê-los a retornarem.
      Os textos do conjunto dos livros bíblicos, de Êxodo a Josué, localizam o evento do Êxodo no país do Egito. A descrição do acontecido é perfeita a ponto de nos convencer. Mas, por que os sacerdotes judaicos, literalmente, utilizam o Egito? Justamente porque os textos visam convencer os judeus do exílio que não querem retornar para a Palestina a voltarem. Eles gostaram de viver na Babilônia. Dessa forma, usar a depreciação da Babilônia como forma de convencimento não surtiria nenhum efeito, pois estavam se dando bem lá. Entretanto, utilizar o Egito se coaduna com dois elementos importantes: a) o Egito sempre foi inimigo da Babilônia e logicamente os judeus do exílio também não gostavam daquele país; b) mostrar que, no passado, Israel já passara por situações piores e, quando confiaram em Deus, foram conduzidos e protegidos pelo próprio Deus. Assim, o Êxodo é simbólico e representa a volta dos exilados para suas terras; bem como o Egito é símbolo da Babilônia.
       Eis o contexto histórico para compreendermos o duelo entre Moisés e Faraó. Essa luta não deve ser entendida como um evento histórico, como algo que aconteceu de fato, mas, como um texto que teologiza a História de Israel.
      Moisés, símbolo dos judeus que saíram da Babilônia, traz consigo um novo projeto de sociedade, apresentado e avalizado pelo Deus judaico: uma nação santa reunida ao redor do templo, sob os sacerdotes. Por isso, Deus está lutando junto com os judeus que saem do "Egito" (Babilônia).
      Assim, podemos responder as questões levantadas no início deste artigo: Como ficaram e quem são os egípcios, e para quem se endereçam estes textos? A resposta é única: aos judeus que resistem em retornar para a Palestina quando termina o exílio babilônico.
      Moisés é convite para que cada judeu opte, radicalmente, pela sua cultura, suas tradições, seu povo, sua terra (Palestina) e SEU DEUS, afogando e matando, completamente o Faraó (cultura babilônica) que existe dentro de cada um.
      Jesus, encarnação e vivência do Projeto de Deus, muitos anos depois, fará o mesmo convite que se estendeu por toda a História até os dias atuais: renascer do Espírito. Ou seja, para que o Reinado de Deus aconteça é necessário assumi-lo radicalmente no cotidiano. O convite da teologia judaica e de Jesus, continua para nós hoje: mate o Faraó que está dentro de você para que o Moisés em você, que quer entrar na dinâmica do Reinado de Deus, possa viver.

 
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