SER TESTEMUNHAS DE DEUS E LUZ PARA AS NAÇÕES
"Antônio Neto / Liomar Contini"

      Recentemente, a perspectiva para se entender Jesus histórico passa pelo conhecimento do chão de sua vida. Pela sua encarnação, Ele nasceu num ambiente judeu e muitos relatos comprovam sua vivência em meio a cultura e costumes de seu tempo.
      O judaísmo é pouco conhecido por nós cristãos católicos. Por isso mesmo, o presente artigo tem um interesse especial em abordar o sentido da eleição do povo de Israel (mais tarde denominado de judeu). A eleição constitui um aspecto valioso para a fé e vida deste povo.
      Falar de Eleição na atual realidade de nosso país, nos remete de imediato ao clima eleitoral que já estamos vivendo. Logo pensamos em propaganda política, comícios, coligações, escolha de candidatos... é todo um processo que perdura até o dia das Eleições. Neste dia enfrentamos filas para votar e ficamos na expectativa de saber quem será o eleito.
       Mas o que é que tem a ver abordarmos Eleição na página Bíblica? Tudo a ver! No entanto, a Eleição aqui não é de um candidato, e sim de um Povo.
       Na nossa página de Reflexão Bíblica queremos trazer esta temática da Eleição de Israel, partindo de um questionamento central: Um Povo é escolhido por Deus para quê?
UM POVO ESCOLHIDO POR DEUS
      O povo de Israel, em termos bíblicos, trata-o como "propriedade de Deus". O define e mostra sua  finalidade pelo imperativo categórico: "Sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação Santa" (Ex. 19,6). A partir dessa missão de Eleito, conceito que perpassa como um fio condutor todo o Antigo Testamento, essa nação Santa começa a correr o perigo de ser entendida erroneamente, como "raça superior", como exclusividade de Deus, como melhores. Na verdade, o próprio conceito de raça não serve para definir o povo judeu, uma vez que judeu não é uma raça, e sim uma comunidade de destino.
      A Bíblia apresenta de várias maneiras a temática da Eleição. O livro do Deuteronômio apresenta Israel como o "menor de todos os povos, e só por amor de Deus vos escolheu, para que Ele cumpra seu juramento que fez a vossos pais" (Dt 7, 7-8).
      Outros escritores sagrados, como o Profeta Isaías (19, 25), apresentam um Deus que não escolhe exclusivamente Israel, mas também o Senhor que fala ao Egito chamando-o de "meu povo", à Assíria como "obras das minhas mãos" e a Israel como "minha herança". Porém, o profeta Zacarias é bastante exclusivista e apresenta o povo de Israel como a "pupila dos olhos de Deus, quem o toca está tocando no próprio Deus" (Zc 2, 12).
O LUGAR DA ELEIÇÃO DE ISRAEL
      Esta Eleição se dá no Monte Sinai com Moisés e com o anúncio dos Dez Mandamentos, escritos pelo dedo de Deus. O sinal dessa Aliança está na circuncisão (Gn 17, 9-14). A circuncisão é entendida como sinal de Deus, uma instituição divina que tem validade para todos os tempos.
      Um dado trágico é a longa história de sofrimento e de dominação que este povo de Israel enfrentou no desenrolar da História. E ainda hoje permanecem os conflitos nesta região. Grandes potências como o Egito, a Assíria, a Babilônia, o Império Romano dominaram de forma cruel o povo de Israel. E que dizer do triste capítulo presenciado, neste nosso século, com o massacre promovido pelo Holocausto? Como conseqüência deste grande sofrimento, o povo de Israel passou a se identificar com Jó, ou com o Servo sofredor de Javé no Deutero-Isaías.
O QUE ALIMENTA ESTA ELEIÇÃO?
      O que dá energia para a manutenção da Eleição é a Liturgia judaica, patrimônio do povo. São orações feitas na Sinagoga, em momentos fortes de celebração da memória do povo. Algumas dessas orações proclamam a felicidade da Eleição: "Como é boa a parte de nossa herança,... e os outros povos rezam coisas vãs e suas orações são vazias, portanto Deus é incapaz de ajudar". Ou também louvam a Deus porque "distingue entre o Santo e o Profano, entre a luz e as trevas, entre Israel e as outras nações".
      Todas essas orações revelam o peso que a Eleição tem na vida das pessoas enquanto firma sua identidade como povo. Hoje em dia busca-se, por parte de alguns seguimentos judaicos, novas formulações mais abertas.
A ELEIÇÃO NO CRISTIANISMO
      Não é só o Povo de Israel que se apresenta inserido na temática da Eleição. O Cristianismo também herdou muito desta experiência, apresentando-se como a Nova Aliança de Deus, em Jesus Cristo, o Messias esperado, o Filho de Deus que se encarna como servo sofredor, ou como o Filho do Homem, já profetizado por Isaías e por Daniel.
      A Igreja se sentiu a Nova Jerusalém e a comunidade passou a se considerar Eleita para a santidade. Isto provocou muitos conflitos entre as duas religiões. Os cristãos acusavam os Judeus de matarem Jesus, portanto, de deicidas. Só no Concílio Vaticano II é que foi contestado e negado o antijudaísmo, resgatando-se o reconhecimento do valor da Aliança e da Eleição de Israel para o Cristianismo.
O QUE SIGNIFICA SER ELEITO?
      Sabemos que o conceito de Eleição de Israel está presente desde os patriarcas e que até em nossos dias ele não perdeu sua força e continua a se reproduzir. Não existe Eleição sem Promessa, como não existe promessa sem compromisso. A fidelidade à Aliança é o critério para que Israel e o cristianismo tenham direito a serem considerados como chamados à Eleição.
      O grande mistério que se encontra infundido na Eleição é o mistério do Amor de Deus para com a Humanidade. É relação dialogal entre as religiões, povos e com Deus. É o mais divino que faz morada entre o mais humano.
     Tanto o povo Judeu como o cristão não pode perder a consciência da missão que Isaías anuncia: "Não basta ser meu servo, só para restabelecer as tribos de Javé e reconduzir os sobreviventes de Israel. Eu te destinei para seres a Luz das nações, para que a minha salvação atinja até os confins da terra" (Is 49, 6).
Hoje, o Deus que tanto nos fala na Bíblia, aparentemente passou a ser silencioso. Aliás, será que nós não ouvimos mais o apelo de Deus? Talvez tenhamos que ouvir para tomar consciência da Eleição!
      Onde não se ouve a voz de Deus, o compromisso para com a construção do Seu Reino de paz, de justiça e de amor estará comprometido. Ser testemunha de Deus e luz dos povos é a missão de quem sabe que nenhuma eleição deve ser usada para privilégios pessoais e benefícios ilícitos, mas para a implantação da fraternidade e da partilha em comum, a exemplo de um Deus que se faz comunicativo e presente na História.

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