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Recentemente, a perspectiva para se entender Jesus histórico
passa pelo conhecimento do chão de sua vida. Pela sua encarnação,
Ele nasceu num ambiente judeu e muitos relatos comprovam sua vivência
em meio a cultura e costumes de seu tempo.
O judaísmo é pouco
conhecido por nós cristãos católicos. Por isso
mesmo, o presente artigo tem um interesse especial em abordar o
sentido da eleição do povo de Israel (mais tarde denominado
de judeu). A eleição constitui um aspecto valioso
para a fé e vida deste povo.
Falar de Eleição na
atual realidade de nosso país, nos remete de imediato ao
clima eleitoral que já estamos vivendo. Logo pensamos em
propaganda política, comícios, coligações,
escolha de candidatos... é todo um processo que perdura até
o dia das Eleições. Neste dia enfrentamos filas para
votar e ficamos na expectativa de saber quem será o eleito.
Mas o que é que tem
a ver abordarmos Eleição na página Bíblica?
Tudo a ver! No entanto, a Eleição aqui não
é de um candidato, e sim de um Povo.
Na nossa página de Reflexão
Bíblica queremos trazer esta temática da Eleição
de Israel, partindo de um questionamento central: Um Povo é
escolhido por Deus para quê?
UM POVO ESCOLHIDO POR DEUS
O povo de Israel, em termos bíblicos,
trata-o como "propriedade de Deus". O define e mostra
sua finalidade pelo imperativo categórico: "Sereis
para mim um reino de sacerdotes e uma nação Santa"
(Ex. 19,6). A partir dessa missão de Eleito, conceito que
perpassa como um fio condutor todo o Antigo Testamento, essa nação
Santa começa a correr o perigo de ser entendida erroneamente,
como "raça superior", como exclusividade de Deus,
como melhores. Na verdade, o próprio conceito de raça
não serve para definir o povo judeu, uma vez que judeu não
é uma raça, e sim uma comunidade de destino.
A Bíblia apresenta de várias
maneiras a temática da Eleição. O livro do
Deuteronômio apresenta Israel como o "menor de todos
os povos, e só por amor de Deus vos escolheu, para que Ele
cumpra seu juramento que fez a vossos pais" (Dt 7, 7-8).
Outros escritores sagrados, como
o Profeta Isaías (19, 25), apresentam um Deus que não
escolhe exclusivamente Israel, mas também o Senhor que fala
ao Egito chamando-o de "meu povo", à Assíria
como "obras das minhas mãos" e a Israel como "minha
herança". Porém, o profeta Zacarias é
bastante exclusivista e apresenta o povo de Israel como a "pupila
dos olhos de Deus, quem o toca está tocando no próprio
Deus" (Zc 2, 12).
O LUGAR DA ELEIÇÃO DE ISRAEL
Esta Eleição se dá
no Monte Sinai com Moisés e com o anúncio dos Dez
Mandamentos, escritos pelo dedo de Deus. O sinal dessa Aliança
está na circuncisão (Gn 17, 9-14). A circuncisão
é entendida como sinal de Deus, uma instituição
divina que tem validade para todos os tempos.
Um dado trágico é a
longa história de sofrimento e de dominação
que este povo de Israel enfrentou no desenrolar da História.
E ainda hoje permanecem os conflitos nesta região. Grandes
potências como o Egito, a Assíria, a Babilônia,
o Império Romano dominaram de forma cruel o povo de Israel.
E que dizer do triste capítulo presenciado, neste nosso século,
com o massacre promovido pelo Holocausto? Como conseqüência
deste grande sofrimento, o povo de Israel passou a se identificar
com Jó, ou com o Servo sofredor de Javé no Deutero-Isaías.
O QUE ALIMENTA ESTA ELEIÇÃO?
O que dá energia para a manutenção
da Eleição é a Liturgia judaica, patrimônio
do povo. São orações feitas na Sinagoga, em
momentos fortes de celebração da memória do
povo. Algumas dessas orações proclamam a felicidade
da Eleição: "Como é boa a parte de nossa
herança,... e os outros povos rezam coisas vãs e suas
orações são vazias, portanto Deus é
incapaz de ajudar". Ou também louvam a Deus porque "distingue
entre o Santo e o Profano, entre a luz e as trevas, entre Israel
e as outras nações".
Todas essas orações
revelam o peso que a Eleição tem na vida das pessoas
enquanto firma sua identidade como povo. Hoje em dia busca-se, por
parte de alguns seguimentos judaicos, novas formulações
mais abertas.
A ELEIÇÃO NO CRISTIANISMO
Não é só o Povo
de Israel que se apresenta inserido na temática da Eleição.
O Cristianismo também herdou muito desta experiência,
apresentando-se como a Nova Aliança de Deus, em Jesus Cristo,
o Messias esperado, o Filho de Deus que se encarna como servo sofredor,
ou como o Filho do Homem, já profetizado por Isaías
e por Daniel.
A Igreja se sentiu a Nova Jerusalém
e a comunidade passou a se considerar Eleita para a santidade. Isto
provocou muitos conflitos entre as duas religiões. Os cristãos
acusavam os Judeus de matarem Jesus, portanto, de deicidas. Só
no Concílio Vaticano II é que foi contestado e negado
o antijudaísmo, resgatando-se o reconhecimento do valor da
Aliança e da Eleição de Israel para o Cristianismo.
O QUE SIGNIFICA SER ELEITO?
Sabemos que o conceito de Eleição
de Israel está presente desde os patriarcas e que até
em nossos dias ele não perdeu sua força e continua
a se reproduzir. Não existe Eleição sem Promessa,
como não existe promessa sem compromisso. A fidelidade à
Aliança é o critério para que Israel e o cristianismo
tenham direito a serem considerados como chamados à Eleição.
O grande mistério que se encontra
infundido na Eleição é o mistério do
Amor de Deus para com a Humanidade. É relação
dialogal entre as religiões, povos e com Deus. É o
mais divino que faz morada entre o mais humano.
Tanto o povo Judeu como o cristão
não pode perder a consciência da missão que
Isaías anuncia: "Não basta ser meu servo, só
para restabelecer as tribos de Javé e reconduzir os sobreviventes
de Israel. Eu te destinei para seres a Luz das nações,
para que a minha salvação atinja até os confins
da terra" (Is 49, 6).
Hoje, o Deus que tanto nos fala na Bíblia, aparentemente
passou a ser silencioso. Aliás, será que nós
não ouvimos mais o apelo de Deus? Talvez tenhamos que ouvir
para tomar consciência da Eleição!
Onde não se ouve a voz de
Deus, o compromisso para com a construção do Seu Reino
de paz, de justiça e de amor estará comprometido.
Ser testemunha de Deus e luz dos povos é a missão
de quem sabe que nenhuma eleição deve ser usada para
privilégios pessoais e benefícios ilícitos,
mas para a implantação da fraternidade e da partilha
em comum, a exemplo de um Deus que se faz comunicativo e presente
na História. |
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