TEMPOS DOS JUÍZES NA BÍBLIA
"Flávio Lima da Silva"

      "Os filhos de Israel fizeram o que era mau aos olhos de Iahweh. Esqueceram-se de Iahweh, seu Deus, e serviram aos Baalins e às Acherás... Quando, porém, os filhos de Israel chamaram a Iahweh, este suscitou um salvador para libertar os filhos de Israel, a saber, Otoniel, filho de Cenez, irmão mais moço de Caleb." (Jz 3, 7. 9)
O LIVRO DOS JUÍZES
     O núcleo principal do livro de Juízes compreende as narrativas dos capítulos 3,7 a 16,31. Dentro da composição literária dos livros bíblicos, estas narrativas estão estruturadas para preencher o espaço cronológico entre a morte de Josué e o surgimento de Samuel. Tornou-se comum designar este espaço histórico como sendo a época dos juízes, pois surgiam quando as tribos israelitas estavam sendo oprimidas.
No hebraico, o título dado aos Juízes provém da raiz que significa julgar, decidir, resolver, acordar uma questão, ajudar alguém a ter seu direito, dar auxílio legal, exercer a função de juiz, sentenciar, punir, castigar, pleitear, demandar, reivindicar seu direito. Na construção substantiva, a palavra quer dizer juiz, árbitro, conselheiro jurídico, governante. Porém, sua função primeira não era exatamente de administrador da justiça baseada num código escrito ou num sistema jurídico. Os juízes eram líderes tribais que surgiam em tempos de dificuldades e conflitos contra os opressores, vizinhos de Israel.
      Porém, para a formação do livro dos Juízes, as narrativas em torno das sagas heróicas constituíram as principais informações para o núcleo desta compilação e é o pano de fundo das idéias e fatos para o deuteronomista organizar seu pensamento teológico e a sua interpretação da história a partir deste período.
O corpo do livro consta de tradições acerca das medidas de auto defesa empreendidas pelas tribos israelitas contra tribos opressoras, como os cananeus, moabitas, madianitas, filisteus. Otoniel está dentro do grupo de narrativas que contém a forma literária de narrativas, na qual relatam as vitórias militares obtidas contra estes opressores.
  CONTEXTO HISTÓRICO
      Faz-se necessário e importante ver este período dentro do quadro cronológico histórico proposto para o oriente antigo, inclusive para Canaã, pois se levarmos em conta que este período do tribalismo vivido pelos israelitas situa-se por volta dos anos 1250 até 1050 a.C, perceberemos que os Juízes de Israel se encaixam dentro deste sistema tribal.
      Esta época é marcada pelo estabelecimento e formação de Israel em Canaã, pois muitas foram as dificuldades encontradas pelos israelitas neste período, uma vez que na região já havia cidades-estado cananéias, e a invasão de povos vizinhos, principalmente os povos do Oriente. Estes povos saqueavam as colheitas, os produtos cultivados pelos israelitas, bem como seus bois e carneiros, colocando o povo em profunda crise econômica, ameaçando as condições de vida (Jz 6).
      No término deste período os Filisteus constituiriam uma nova ameaça para Israel: os Povos do Mar dominaram as novas técnicas de expansão territorial, dominando o ferro.
O TONIEL, JUIZ EM ISRAEL
      Otoniel, do território meridional de Judá (3,11), está no primeiro grupo que compreende aqueles que certamente exerceram a função de chefes guerreiros das tribos israelitas, juntamente com Aod, Sangar, Débora, Gedeão, Jefté, Sansão.
      Esta narrativa contém elementos fundantes para entender a história de Israel pois partem de fatos históricos, lendas locais. Possuem memórias culturais, relatos de ações guerreiras, lutas com povos vizinhos pela posse da terra, inclusive informações topogeográficas da região Cananéia. Esta narrativa final, mesmo com muitas informações anacrônicas, são fontes importantes para se entender a complexa situação econômica, política, religiosa e social de Israel, pois são escassas e incompletas as informações históricas sobre este período de Israel.
       O "ciclo" de Otoniel inicia comentando sobre algo de errado feito pelos israelitas e, consequentemente, Iahweh entrega seu povo por oito anos em poder dos "Edonitas" (3,7). Esta idéia de que os filhos de Israel fizeram o que é mau aos olhos de Iahweh se torna uma espécie de refrão teológico e perpassa todo o livro dos Juízes e dos Reis, como um julgamento conclusivo de uma história que teve um final malogrado. Portanto, o grupo desta articulação final coloca o mal sempre presente com o povo, tentando de certa forma justificar os momentos difíceis de Israel, como por exemplo, o exílio.
       O redator final, após apresentar Israel em grandes dificuldades para sobreviver, procura ressaltar o clamor do povo a Iahweh, e a libertação feita por Iahweh, realizada pelas mãos de um juiz. Este esquema se desenrola em todos os juízes, chamados de maiores. Do fundo do sofrimento surge o grito do povo. Diante de um inimigo que explora e deixa o povo na miséria e com fome, surge a esperança: IAHWEH.
       Na perspectiva deuteronomista, todo bem e todo o mal vem de Iahweh. Após o pecado do povo, ou seja, o "fazer mal aos olhos de Iahweh", surge um período de provação, de castigo. Justificável segundo ela, porque Israel não ouviu seus mandamentos, pois Iahweh é o Deus de Israel, que libertou o seu povo do Egito e deu a terra, embora Israel não tenha permanecido fiel a esta ação libertadora de Iahweh.
      É desta maneira que o redator final começa a entender a história de Israel, ou seja, começa explicar um fato do presente que não deu certo, ou implantar uma nova maneira de estruturar as leis, buscando na quebra da aliança a razão fundamental para tal intenção. Por exemplo, o culto a Baal, deus da fertilidade (3,7). Ele recorda os benefícios de Ihaweh estabelecidos na aliança do Sinai e exige o culto exclusivo. Esta idéia de culto exclusivo e centralizado é clarividente no pensamento teológico-político de Israel pós-exílico. A narrativa deixa claro que o povo deve temer a Iahweh e não a outros deuses.
       Por fim, fechando o ciclo de Otoniel, temos a morte do mesmo e o povo volta à prostituição aos Baalins.

 
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