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"Os filhos de Israel fizeram o que era mau aos olhos de Iahweh.
Esqueceram-se de Iahweh, seu Deus, e serviram aos Baalins e às
Acherás... Quando, porém, os filhos de Israel chamaram
a Iahweh, este suscitou um salvador para libertar os filhos de Israel,
a saber, Otoniel, filho de Cenez, irmão mais moço
de Caleb." (Jz 3, 7. 9)
O LIVRO DOS JUÍZES
O núcleo principal do livro de Juízes
compreende as narrativas dos capítulos 3,7 a 16,31. Dentro
da composição literária dos livros bíblicos,
estas narrativas estão estruturadas para preencher o espaço
cronológico entre a morte de Josué e o surgimento
de Samuel. Tornou-se comum designar este espaço histórico
como sendo a época dos juízes, pois surgiam quando
as tribos israelitas estavam sendo oprimidas.
No hebraico, o título dado aos Juízes provém
da raiz que significa julgar, decidir, resolver, acordar uma questão,
ajudar alguém a ter seu direito, dar auxílio legal,
exercer a função de juiz, sentenciar, punir, castigar,
pleitear, demandar, reivindicar seu direito. Na construção
substantiva, a palavra quer dizer juiz, árbitro, conselheiro
jurídico, governante. Porém, sua função
primeira não era exatamente de administrador da justiça
baseada num código escrito ou num sistema jurídico.
Os juízes eram líderes tribais que surgiam em tempos
de dificuldades e conflitos contra os opressores, vizinhos de Israel.
Porém, para a formação
do livro dos Juízes, as narrativas em torno das sagas heróicas
constituíram as principais informações para
o núcleo desta compilação e é o pano
de fundo das idéias e fatos para o deuteronomista organizar
seu pensamento teológico e a sua interpretação
da história a partir deste período.
O corpo do livro consta de tradições acerca das medidas
de auto defesa empreendidas pelas tribos israelitas contra tribos
opressoras, como os cananeus, moabitas, madianitas, filisteus. Otoniel
está dentro do grupo de narrativas que contém a forma
literária de narrativas, na qual relatam as vitórias
militares obtidas contra estes opressores.
CONTEXTO HISTÓRICO
Faz-se necessário e importante
ver este período dentro do quadro cronológico histórico
proposto para o oriente antigo, inclusive para Canaã, pois
se levarmos em conta que este período do tribalismo vivido
pelos israelitas situa-se por volta dos anos 1250 até 1050
a.C, perceberemos que os Juízes de Israel se encaixam dentro
deste sistema tribal.
Esta época é marcada
pelo estabelecimento e formação de Israel em Canaã,
pois muitas foram as dificuldades encontradas pelos israelitas neste
período, uma vez que na região já havia cidades-estado
cananéias, e a invasão de povos vizinhos, principalmente
os povos do Oriente. Estes povos saqueavam as colheitas, os produtos
cultivados pelos israelitas, bem como seus bois e carneiros, colocando
o povo em profunda crise econômica, ameaçando as condições
de vida (Jz 6).
No término deste período
os Filisteus constituiriam uma nova ameaça para Israel: os
Povos do Mar dominaram as novas técnicas de expansão
territorial, dominando o ferro.
O TONIEL, JUIZ EM ISRAEL
Otoniel, do território meridional
de Judá (3,11), está no primeiro grupo que compreende
aqueles que certamente exerceram a função de chefes
guerreiros das tribos israelitas, juntamente com Aod, Sangar, Débora,
Gedeão, Jefté, Sansão.
Esta narrativa contém elementos
fundantes para entender a história de Israel pois partem
de fatos históricos, lendas locais. Possuem memórias
culturais, relatos de ações guerreiras, lutas com
povos vizinhos pela posse da terra, inclusive informações
topogeográficas da região Cananéia. Esta narrativa
final, mesmo com muitas informações anacrônicas,
são fontes importantes para se entender a complexa situação
econômica, política, religiosa e social de Israel,
pois são escassas e incompletas as informações
históricas sobre este período de Israel.
O "ciclo" de Otoniel
inicia comentando sobre algo de errado feito pelos israelitas e,
consequentemente, Iahweh entrega seu povo por oito anos em poder
dos "Edonitas" (3,7). Esta idéia de que os filhos
de Israel fizeram o que é mau aos olhos de Iahweh se torna
uma espécie de refrão teológico e perpassa
todo o livro dos Juízes e dos Reis, como um julgamento conclusivo
de uma história que teve um final malogrado. Portanto, o
grupo desta articulação final coloca o mal sempre
presente com o povo, tentando de certa forma justificar os momentos
difíceis de Israel, como por exemplo, o exílio.
O redator final, após
apresentar Israel em grandes dificuldades para sobreviver, procura
ressaltar o clamor do povo a Iahweh, e a libertação
feita por Iahweh, realizada pelas mãos de um juiz. Este esquema
se desenrola em todos os juízes, chamados de maiores. Do
fundo do sofrimento surge o grito do povo. Diante de um inimigo
que explora e deixa o povo na miséria e com fome, surge a
esperança: IAHWEH.
Na perspectiva deuteronomista,
todo bem e todo o mal vem de Iahweh. Após o pecado do povo,
ou seja, o "fazer mal aos olhos de Iahweh", surge um período
de provação, de castigo. Justificável segundo
ela, porque Israel não ouviu seus mandamentos, pois Iahweh
é o Deus de Israel, que libertou o seu povo do Egito e deu
a terra, embora Israel não tenha permanecido fiel a esta
ação libertadora de Iahweh.
É desta maneira que o redator
final começa a entender a história de Israel, ou seja,
começa explicar um fato do presente que não deu certo,
ou implantar uma nova maneira de estruturar as leis, buscando na
quebra da aliança a razão fundamental para tal intenção.
Por exemplo, o culto a Baal, deus da fertilidade (3,7). Ele recorda
os benefícios de Ihaweh estabelecidos na aliança do
Sinai e exige o culto exclusivo. Esta idéia de culto exclusivo
e centralizado é clarividente no pensamento teológico-político
de Israel pós-exílico. A narrativa deixa claro que
o povo deve temer a Iahweh e não a outros deuses.
Por fim, fechando o ciclo de
Otoniel, temos a morte do mesmo e o povo volta à prostituição
aos Baalins. |
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