TEMPO DE PREPARAÇÃO  PARA A PÁSCOA
"Cícero Charles"

      QUARESMA
          Quaresma é um tempo oportuno para rever a nossa caminhada de cristãos e também de aprender a sua origem e suas etapas para melhor celebrar a Páscoa do Salvador.
           A palavra Quaresma provém do vocábulo latino, quadraginta, e do seu adjetivo, quadragésima, que significa quarenta. No tempo dos primeiros cristãos, temos a quadragésima paschae, sendo o período de quarenta dias de preparação para a Páscoa. Nesse tempo destacamos três pilares fundamentais: a oração, penitência e conversão.
      SENTIDO BÍBLICO
           Esse tempo é muito rico de símbolos, pois lembramos os quarenta anos da peregrinação de Israel pelo deserto na procura da terra. Essa experiência do deserto foi muito importante porque colocou o povo diante da opção entre Jaweh , o Deus de Abraão, e os ídolos. Lembramos ainda os quarenta dias, que Moisés jejuou no monte Sinai (Ex. 34,28), quando houve a manifestação de Jaweh, e lhe conferiu as tábuas da lei, contendo os dez mandamentos. Recorda-se também o tempo que profeta Elias caminhou em direção do monte Horeb (1Rs 19,8), onde teve a grande experiência com Jaweh.
          Geralmente, as nossas comunidades procuram imitar Jesus Salvador que jejuou quarenta dias no deserto, depois do seu batismo no Jordão (Mt 4,2 ; Lc 4,1). O deserto, na concepção bíblica, é considerado o lugar da provação, da experiência da solidão e de penitência. É o lugar da conscientização e da reflexão, diante das grandes decisões que marcam etapas na história da salvação.
           No início do cristianismo o jejum era seguido à risca. Tomava-se uma refeição no final da tarde. Depois foi acrescentada a abstinência de carne e vinho, e em alguns lugares, a abstinência de laticínios. Esse rigorismo no jejum e penitência vem desde o século IV até o final da Idade Média.
           Para nós e nossa comunidade hoje, podem parecer sem sentido esses costumes e até chegarmos à conclusão de que tudo isso não passa de uma visão errônea sobre o homem ou alteração do seu sentido religioso. Mas, os primeiros cristãos, viam o jejum como meio de equilíbrio e domínio da vida humana e um meio de concentração, meditação e oração. O jejum era também uma forma de alerta para ajudar os pobres, denunciando o supérfluo e o luxo de muitos que esbanjavam, enquanto muitos passavam fome.
           O jejum quaresmal estava relacionado à reconciliação dos penitentes e à preparação ao batismo, segundo o apelo de Marcos 1,15: "Convertei-vos e crede no evangelho".
       TEMPO PENITENCIAL
           Tendo presente que a quaresma nos indica o jejum e a penitência, não usar desses meios como pretexto para viver no clima de consternação, tristeza, desânimo. Deve ser o tempo de alegre preparação para a Páscoa. É o momento de abertura e meditação para a Palavra de Deus Salvador e caminho com outro, que pede a metánoia (Mc 1,15), a mudança de atitude, a modificação de vida.
            O jejum, melhor compreendido, não é apenas a renúncia dos alimentos, mas o equilíbrio sadio diante de tanto bem-estar que a vida moderna, consumista nos oferece.
              O Concílio Vaticano II pede para resgatar os elementos batismais próprios da liturgia quaresmal, que foram perdidos com o passar dos tempos. Os elementos penitenciais devem ser acompanhados pela conversão, mudança radical de mentalidade e de vida, baseada na realidade em que vivemos, procurando detectar o pecado pessoal e social, como causa de exclusão e desvalorização pela vida humana.
         PREPARAÇÃO PARA A PÁSCOA
               Agora é a nossa vez! Já sabemos que a quaresma é o convite à penitência, à conversão, à oração e à reflexão. Por isso, somos convidados a fazer uma recordação - atualização da experiência do batismo. Pois o batismo é um sinal daqueles que acreditam na vida, mensagem, morte e ressurreição do Divino Salvador. Pela sua vida, nos trouxe o compromisso com os excluídos e marginalizados.
                Nossa missão nessa quaresma visa superar os aspectos folclóricos da quaresma para recuperar seus aspectos penitenciais, dentro dos quarenta dias, para que sejam uma retomada da vida pessoal e uma reflexão da vida social da comunidade.
                 Por isso é fundamental a preparação para a Páscoa, pois a Igreja tem consciência que a Páscoa constitui o valor supremo da vida da humanidade, o centro de convergência da História. Na carta aos Romanos, capítulo seis, Paulo diz que o batismo é perfeita conformação com a morte e ressurreição de Cristo. Assim, a Quaresma e a Páscoa têm por função espiritual o reencontro do batismo com o cristão, que é adesão ao projeto do Salvador.
        CONCLUSÃO
            A vida é um caminho a ser percorrido, entre os irmãos e irmãs da estrada na direção de Deus. Muitas vezes precisamos retomar o caminho, recuperar as forças e caminhar com novo entusiasmo. Esse tempo favorável para essa missão é a quaresma. O objetivo maior é a Páscoa, a passagem cristã, que refaz o projeto de Deus e simboliza a Páscoa eterna.
            Tempo de penitência, oração, conversão faz pensar que a quaresma é o caminho de volta.
            A quaresma não é um tempo formal, de penitências estipuladas, de jejuns estéreis. É tempo de recuperar valores perdidos do cristianismo para a construção do Reino de Deus.

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