REINO DE DEUS E O FERMENTO NA MASSA
"Francisco Erivam"

      Quem dentre nós ainda não ouviu expressões como: “o cristão deve ser fermento na massa” tratando-se do campo da evangelização? Já dentro do campo político e social, a palavra “massa” é usada para falar de pessoas que são manipuladas por um sistema de cunho ideológico. Por outro lado há quem fale de “conscientização”, “fazer a cabeça das pessoas” e outras expressões do gênero.
      A nossa sociedade possui os seus próprios valores e sua própria consciência, formada pelo capitalismo, pois o “cristianismo foi mordido em sua artéria pelo capitalismo”. Entre os principais valores pregados pelo capitalismo estão a eficácia e a eficiência. As pessoas que não tiveram oportunidades para estudar, estão sendo cada vez mais deixadas de lado. Para o capitalismo o que importa é o deus do ter e o do poder. Há também o deus do prazer, porém este último é adorado pelo capitalismo de forma diferente da sociedade em geral. Pois enquanto o capitalismo prega o consumismo como forma de prazer, adora este deus acumulando cada vez mais.
      Como meio de fomentar o consumismo entra em sena a Mídia e os meios de Comunicação Social. Muitos programas de rádio e televisão usam o modelo tradicional de família em propagandas para vendas de produtos. Por outro lado estes mesmos Meios de Comunicação ridicularizam as famílias atacando seus valores fundamentais em novelas, filmes e em programas em geral. “A família apresenta-se, outrossim como vítima dos que convertem em ídolos o poder, a riqueza e o sexo. Para isso contribuem as estruturas injustas, sobretudo os Meios de Comunicação, não só com suas mensagens de sexo, lucro, violência, poder ostentação, mas também pondo em destaque elementos que contribuem para propagar o divórcio, a infidelidade conjugal e o aborto, ou a aceitação do amor livre e das relações pré-matrimoniais” (Puebla art. 573, p.236). Muitos cristãos, não querendo passar por atrasados, sentem-se forçados a renunciar valores familiares e cristãos considerados arcaicos como honestidade, fidelidade e outros.
       Mas é neste contexto de oprimidos e opressores, valores e contra-valores, progressos científicos e tecnológicos, a serviço ou não dos empobrecidos, que os cristãos precisam vivenciar o seu batismo e os demais sacramentos, iluminados pela fé em Jesus Cristo. Não estamos falando dos católicos batizados que não participam da Igreja, certamente estes não têm a pretensão de dizerem que devem ser “fermento na massa”, estamos falando de todos nós que participamos de algum modo da vida da Igreja.
      Participar da vida da igreja, além de participar das missas e dos sacramentos é acima de tudo se deixar misturar pelo “fermento” do Reino de Deus que é o amor, a justiça e a misericórdia. O amor que vem de Deus não se reduz a um sentimento de “pena” por quem está sofrendo. Pois o amor e a misericórdia, vêm de Deus e nos moverá a nos comprometermos com aqueles que sofrem. Comprometer-se com os que sofrem não é somente dar um prato de comida ou uma esmola, “os pagãos também fazem isso, emprestam para receber outro tanto”. Quem é cristão é chamado a promover a vida onde ela estiver ameaçada. Isto não é possível sem doação. Doar-se não é também possível sem uma união com Jesus Cristo. “Para os cristãos, não se trata só de imitar Jesus, mas de estarem intimamente unidos a Ele”.(Doc. Pontifício Conselho para o dialogo inter-religioso art. 86 pg 72).
      É o Amor de Deus que nos vem pelo seu Espírito Santo, que une Jesus Cristo a todos os cristãos e que faz crescer o Reino de Deus. Como o “fermento misturado na massa”. É neste sentido que Jesus disse que “o Reino de Deus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e pôs três medidas de farinha, até que tudo ficasse fermentado”(Mt 13,3).
      Esta comparação do Reino de Deus com “farinha” e “fermento” que são misturados, não deveria ser entendido como algo que se inicia quando começamos a fazer pastoral e falamos para as pessoas sobre o Reino de Deus, mas precisa ser entendido como algo que transforma primeiramente a nossa vida, nos contagia, transborda-nos pelo testemunho. Daí, então, deveria ser falado porque, antes, este Reino de Deus foi experimentado, experienciado, vivido. Quando isso acontece concretamente, o Reino de Deus aparece, cresce, como um fermento que se confunde com a “massa”. Quem olha, só percebe a “massa” crescendo. Não vê nem compreende que quem faz a massa crescer é o fermento. Pois a força está no “fermento” e não na “massa”, que é movimentada e cresce. A “massa” é elogiada enquanto o fermento é esquecido. “Massa” aqui não deve ser entendida como uma multidão de pessoas em um espaço geográfico específico. Pois o Reino de Deus não se limita a um espaço geográfico, se manifesta em todo lugar, onde se encontram pessoas que livremente estejam dispostas a renunciar o deus do poder, do ter e do prazer, e se disponham a dizer sim à proposta do Reino de Deus, cuja manifestação já se faz no mundo inteiro.
       Para Refletir
1. Considerando o “fermento”do Reino de Deus e o do capitalismo, em qual dos dois estou mais envolvido(a)?
2.Como estou testemunhando os valores do evangelho, quando percebo que não dá para conciliá-los com certos valores pós-modernos?
3. Até que ponto a minha relação entre fé e vida é percebida na relação com as outras pessoas?

 
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