RELIZA-SE COMO PROFETA
"César Cordeiro de Barros"

      O Império Babilônico com seu exército e sistema de domínio invade Judá no século VI (ano 597) aC.,  desencadeando uma série de problemas sociais, econômicos e religiosos. Muitas pessoas morreram vítimas da fome, outras morreram na luta, e muitos outros foram levados como exilados papa a Babilônia. Ou seja, o domínio da Babilônia sobre o povo de Israel significou morte, deportação, destruição e devastação.
      Entre os deportados de Jerusalém para a Babilônia estavam o rei Joaquin e Ezequiel, o sacerdote, o filho de Buzi (Ez 1,3). Ezequiel era um sacerdote, assim como Jeremias, e trabalhava no templo de Jerusalém. Ele vive intensamente todos os acontecimentos que vão mudando a história de Israel e, diante da queda de Jerusalém, ele não é apenas um observador, ele toma partido pessoalmente.
       A MISSÃO
      Ezequiel é chamado a ser profeta na Babilônia (1,1-2), a falar aos exilados que são seus compatriotas. Mas ele se dirige a "toda a casa de Israel", ao rei e dirigentes de Israel, aos indivíduos e ao rei Sedecias. Critica os reis de Israel, especialmente Sedecias, e os considera responsáveis pela ruína de Israel.
      Ezequiel profetiza que Javé vai renovar o seu povo, dando-lhe um coração novo e ressuscitando-o com seu espírito.
      O livro de Ezequiel começa com a descrição da deslumbrante visão da imagem da glória de Javé, que prostrou o profeta por terra (1). Depois, Javé dirigiu-se a Ezequiel e indicou-lhe a sua missão e as circunstâncias em que haveria de servir (2,1-3,5).
       O profeta foi tratado por Javé como Filho do Homem, título usado mais de 90 vezes em Ezequiel para indicar o caráter de servo do profeta e a grande condescendência de Deus em falar-lhe. O profeta, sendo enviado com este título, testemunha a responsabilidade de Javé com Israel.
                  37, 1-14
      O capítulo 37 de Ezequiel é introduzido com a afirmação de que "a mão de Javé pousou sobre mim e o espírito de Javé me levou e me deixou num vale cheio de ossos".
      A fórmula "a mão de Javé pousou sobre mim" aparece sete vezes em Ezequiel e sempre serve para introduzir um novo oráculo ou novo capítulo (1,3; 3,14.22; 8,1; 33,22; 37,1; 40,1).
       Este texto é um dos mais célebres de Ezequiel, respondendo aos problemas e situação do povo, num tom de esperança e consolação. É muito rico no que se refere ao sopro, ao espírito = rûah. É o sopro de vida, o hálito, é ele quem faz viver os ossos secos. Além disso, a profecia diz que ele "vem dos quatro ventos", ou seja, o sopro deve vir de toda parte. É o espírito que age no profeta para inaugurar a ação e a palavra profética, e nos israelitas para instalá-los em seu país.
          OS OSSOS SECOS
         vv. 4-6:
        Então ele me disse: 'Profetize, dizendo: Ossos secos, ouçam a palavra de Javé! Assim diz o Senhor Javé a esses ossos: Vou infundir um Espírito, e vocês reviverão. Vou cobrir vocês de nervos, vou fazer com que vocês criem carne e se revistam de pele. Em seguida, infundirei o meu espírito, e vocês reviverão. Então vocês ficarão sabendo que eu sou Javé'.
       Nesta visão o profeta viu um vale cheio de ossos, muito numerosos e secos. Este simbolismo significava que muitas pessoas haviam morrido e que estavam mortas havia muito tempo. Ezequiel recebeu ordem de profetizar e estes ossos, dizendo-lhes que Javé os cobriria de tendões, de carne e de pele e depois os vivificaria, dando-lhes sopro.
      vv. 7-8:
      Enquanto eu estava profetizando, ouvi um barulho e vi um movimento entre os ossos, que começaram a se aproximar um do outro, cada um com o seu correspondente. Observando bem, vi que apareciam nervos, que iam sendo cobertos de carne e que a pele os recobria; mas não havia espírito neles.
      Assim diz o Senhor Javé: Espírito, venha dos quatro ventos e sopre nestes cadáveres, para que revivam'. Profetizei conforme ele havia mandado. O espírito penetrou neles, e reviveram, colocando-se de pé. Era um exército imenso".
      O profeta entende a ressurreição destes ossos como nova criação. Um grande ruído como manifestação de Deus acompanha a reunião dos ossos e o espírito vivificador vem, a convite do profeta, repor o povo reformado sobre seus pés como poderoso exército.
        vv. 11-12:
       Os israelitas andavam dizendo: 'Nossos ossos estão secos e nossa esperança se foi. Para nós tudo acabou'. Pois bem, profetize e diga: 'Vou abrir seus túmulos, tirar vocês de seus túmulos, povo meu, e vou levá-los para a terra de Israel."
       Os ossos são o povo de Israel que lamenta: "os nossos ossos estão secos; a nossa esperança está desfeita; está tudo acabado".
       O futuro para Israel só pode ser entendido pela categoria de vida a partir da morte. A visão dos ossos secos expressa a promessa incondicional de Deus para o futuro.
     PARA REFLETIR
- O profeta impelido pelo Espírito tem uma palavra que promete e que dá vida ao povo, palavra que recria o povo a partir do nada em que caiu, recriação que o manterá de pé e em vida. Nós acreditamos na vida que brota da cruz?
- O profeta acredita fielmente em seus projetos e sonhos. Ele é capaz de enfrentar qualquer dificuldade para levar adiante o seu ideal de vida, que geralmente está intimamente ligado a uma visão humana e libertadora. Quais são nossos sonhos e projetos, e como buscamos realizá-los?
- A palavra profética de Ezequiel, assim como a palavra criadora de Gênesis, convoca o espírito para libertar e restaurar a vida do povo de Deus, que tinha sido dominado, destruído e exilado. Qual o espírito que impulsiona nossa profecia e nossa solidariedade?

© - 2006 - Salvatorianos - Todos os direitos reservados