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Neste mês de agosto comemoramos o dia dos pais, esta
pessoa que muitas vezes revestimos de uma armadura tão
forte, incapaz de amar, de ter sentimentos de perdão e de
misericórdia.
Tive acesso recentemente a uma coleção
de livros infantis de relatos da Bíblia, entitulada "Clássicos
da Bíblia". Estes livros foram ilustrados com figuras
coloridas e com relatos sintetizados de histórias como a
da Criação, do Rei Davi, de Rute, de Ester, Parábolas,
Milagres de Jesus, etc. O que me instigou foi a sensação
de estar lendo "Branca de Neve", "Chapeuzinho Vermelho".
Não se pode negar que esta forma tem seu efeito positivo
para ilustrar e deixar atraentes estes relatos tão complexos
e enigmáticos, aproximando as crianças deste livro
referencial para nossa civilização.
O que me inspirou a escrever estas
linhas foi o fato de ter encontrado estampada, em todas as páginas,
a imagem de Deus como um senhor de barba branca e de olhos azuis.
A partir desta constatação de que Deus é um
homem, certamente o imaginário da criança que tiver
contato, com esta coleção mencionada, identificará
Deus como "o Pai do Céu". E por falar em Pai do
Céu, numa oportunidade em que estava com um grupo de crianças,
conversando sobre Deus, um menino protestou a afirmação
de que Deus pudesse ser Pai e bom ao mesmo tempo, porque o seu pai
batia na mãe dele e vivia bêbedo. Dada essa experiência,
ele não podia admitir que Deus pudessse ser pai.
O CONCEITO DE DEUS COMO PAI
O conceito de Deus Pai é abordado
na Bíblia a partir da experiência humana de paternidade,
aplicada por analogia a Deus. Em relação a Israel,
Deus é chamado de pai em razão da Eleição,
ato esse indissociável de sua intervenção histórica
em favor de seu Povo. Alguns profetas aplicam a Deus a metáfora
de pai, como fundador de uma nova criação, de uma
nova aliança.
Nos textos bíblicos do Antigo
Testamento, o nome divino varia de acordo com as tradições
teológicas (Javista, Eloísta, Deuteronomista, Sacerdotal),
dentre as quais falaremos apenas sobre a tradição
Javista, responsável por atribuir a Deus o nome pessoal Javé
(IHWH) que não era pronunciado, mas que significava "Senhor".
O nome do Deus de Israel é Javé, manifestado a Moisés
por revelação divina (Ex 3, 14). Esse nome não
é substantivo, mas uma declaração: "Eu
Sou, aquele que Sou". São afirmações sobre
o seu Ser. Nesta afirmação, Deus se revela como absoluto
e de forma superior, pois dar nome é manipular, é
ter o domínio. Assim, Deus não permite ser possuído.
MONOTEÍSMO X POLITEÍSMO
Numa realidade em que o monoteísmo
próprio do povo de Israel entrava em confronto com crenças
politeístas do mundo pagão, a tradição
bíblica buscou afirmar imagens masculinas para Deus. A escolha
de imagens masculinas aplicadas a Deus, como exclusão de
imagens femininas, ocorreu em contraposição ao culto
de deusas da fertilidade do mundo pagão. Vigorava o medo
de que o sincretismo tomasse conta dos Israelitas e corrompesse
as práticas religiosas do povo.
É no ambiente sócio-cultural
de Canaã que se deve procurar a origem de muitas imagens
masculinas de Deus. As que se sobressaem é a de Criador,
Juiz, Rei, Pai, Eterno, Sábio, Benevolente, Compassivo, Forte,
Poderoso. Portanto, os fatos decisivos para a construção
de um conceito sobre Deus, no AT, foram marcados pela polêmica
antipoliteísta.
NOS LAÇOS DE AMOR DE DEUS - OSÉIAS 11,
1-11
O profeta Oséias, no capítulo
11, revela um Deus amoroso e acolhedor para com seu Povo. Este Deus
manifesta ternura, suavidade, tanto que se relaciona com gestos
de carinho, ensinando, andando, amamentando e pegando no colo. É
um Deus próximo que caminha junto com a criatura. "Eu
os atraía com vínculos humanos, com laços de
amor" (Os 11, 4).
DEUS NO NOVO TESTAMENTO
Jesus chama Deus de "Abbá"
(Papaizinho), demonstrando sua intimidade com Ele: "O Pai e
eu somos um", "o Pai é maior que eu" (Jo 14,
28). No "Pai Nosso" Jesus expressa a relação
de dependência da criatura com o criador, a qual se estabelece
entre o filho e o Pai, para incluir o povo nesta nova aliança
com Deus.
Lc 15, 11-32 - O Pai Misericordioso:
A compaixão é o gesto de
amar e de solidarizar-se com o outro, a atitude que caracteriza
o ser do bom samaritano (Lc 10, 33). Este mesmo encontro com o próximo
que está à margem, sem esperança e desencantado
com os caminhos da vida, ocorre na parábola que tanto conhecemos
como sendo do filho pródigo. Na verdade, o personagem principal
que se dá a conhecer nesta parábola é o pai
de amor, de gratuidade, de misericórdia que, ao avistar de
longe seu filho, tem compaixão.
Enquanto Pai, Deus ama incondicionalmente.
O filho que retorna não demonstra ter feito a experiência
de um pai misericordioso, estar convertido, pois ele mesmo havia
decretado sua punição ao querer ser aceito pelo pai
apenas como um dos empregados, para viver com dignidade. Ele não
pede para ser reconstituída sua relação como
filho.
O ser Pai de Deus surpreende!!!
Antes mesmo do filho declamar seu discurso decorado, o pai corre
ao seu encontro e o envolve em beijos e abraços. E ao confessar
sua culpa o pai responde com gestos que revestem o amado com sua
condição de pertença à família.
E a penitência? Vamos fazer festa, nos alegrar: Eis o fruto
do verdadeiro encontro com o pai misericordioso.
LIÇÃO DE VIDA
Convertemo-nos quando, no caminho
de volta, somos surpreendidos pela misericórdia do Pai e
entramos nesta dinâmica da reconstrução
de relações, conosco, com Deus, com o próximo
e com a criação, assim como o filho pródigo
que até o final da parábola ficou sem palavras. E
não era para menos.
É esse o rosto do Pai que devemos associar
a Deus e vivenciar. É Aquele que incentiva, corrige, mostrando
o que é bom, amando, não remoendo o que de mau ficou
pelo caminho.
Por muitas vezes acreditamos que
somente as mulheres são munidas destas características.
É preciso termos consciência de que o ato de amar é
próprio de todo o ser humano e por isso também podemos
encontrar estes sentimentos na figura do Pai.
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