PRESENÇA DE JAVÉ
"Sílvio Aparecido / Ederaldo Macedo"

      Na nossa catequese, aprendemos que o Decálogo, mais conhecido como Os Dez Mandamentos, foi entregue por Deus ao líder dos escravos hebreus que saíam do cativeiro do Egito: Moisés. Por muito tempo, essa imagem de Deus falando a Moisés e escrevendo os mandamentos com raios em lâminas de pedra ficou em nossa memória, reforçada ainda por filmes como Os Dez Mandamentos de Chalton Heston. Mas como obras primas de Deus estamos fadados ao desenvolvimento como toda a sua criação. Hoje sabemos que existe um significado muito maior por trás dessa história aparentemente mágica.
      O decálogo foi sistematizado no final do Reino do Norte (que se deu em 926 a.C. com a invasão assíria) como uma síntese das principais leis e metas que deviam reger Israel, tendo como princípio básico, preservar a liberdade do povo, mantendo-o livre de uma sociedade opressora que escravizava e, por conseguinte, excluía, bem como elaborar um projeto de reorganização da sociedade israelita, esfacelada em decorrência de sua escravização no Egito. Era de fundamental importância para o povo de Israel assegurar uma identidade religiosa em torno de Javé (monoteísmo) visto que, devido a um longo processo histórico marcado por invasões e dominações estrangeiras, o politeísmo - e com ele as idolatrias - influenciava sobre maneira as relações.
      Mesmo depois de muito sofrimento, o povo israelita reproduzia, de certa forma, as injustiças que sofria no cativeiro: existia uma forte influência, como já foi dito, de deuses estrangeiros (Ex 20, 23; 22, 19), que ocasionava divisões e consequentemente, perda da identidade do grupo; os mais abastados mantinham um sistema econômico escravagista (Ex 21, 12.13); os estrangeiros eram discriminados (Ex 23,9); muitos pobres e indigentes (Ex 23,3) enquanto que uns enriqueciam; sequestros (Ex 21,16), roubos, brigas e assassinatos (Ex 21,1-3) por causa de terras, mulheres e animais; destruição de colheitas por vingança; falsos testemunhos (Ex 23,1); suborno e muitas outras coisas que não os qualificariam como o povo escolhido.
      Mas o era de fato. Olhando para tal situação faz-se necessário relembrarmos o que nos fala Ex 20,2: "   Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fiz sair da Terra do Egito, da casa da servidão".
      Isso se constata na presença de Deus na trajetória deste povo. Essa presença não era uma coisa mágica como nos foi passado pelos escritores bíblicos, mas a notamos nas motivações e na força propulsora que gerou Israel. Foram determinantes as respostas dadas aos conflitos cotidianos baseados em questões éticas, tendo como juiz supremo aquele que os tirou da terra da escravidão: Javé.
       As instituições já não davam mais conta dos conflitos sociais existentes em Israel; como tentativa de agregar o povo debaixo de uma só tenda, a sistematização do decálogo foi fundamental para reforçar a identidade do mesmo e defender os mais fracos da sociedade existente. A unidade em torno de Javé e o respeito às suas leis garantiriam a sobrevivência de Israel como um povo frente aos outros povos. Essa identidade foi fincada na alma israelita a partir do Decálogo; organizando a sociedade política e economicamente de forma teocrática, com Javé no centro das relações.
      Evidentemente, Deus se fez presente na construção desses mandamentos. Não daquela forma mágica que vemos nos filmes de Hollywood, mas sim, na trajetória de um povo em busca da felicidade de forma ética; prezando e defendendo os excluídos da sociedade, na busca incessante por justiça, na harmonia entre as pessoas, na garantia de fraternidade. Deus se faz presente em nosso meio nos dando forças para romper as correntes das diferenças, das desigualdades, do egoísmo; nos motiva a lutar por um mundo mais justo e fraterno. Por isso nos abençoou desde o nosso nascimento, deu-nos a capacidade de amar o próximo e de evoluir, organicamente, intelectualmente e espiritualmente.
    Diante do que foi apresentado nesta breve abordagem sobre o Decálogo e o que o mesmo representou para a história do povo de Israel, cabe a nós, depois de uma reflexão entender de fato o verdadeiro sentido das leis (vista como verdadeiro código ético) para aquele povo a fim de que não tiremos conclusões precipitadas através de uma leitura fundamentalista deste texto que compreende todo o capítulo 20 do Êxodo.

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