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Na nossa catequese, aprendemos que o Decálogo, mais
conhecido como Os Dez Mandamentos, foi entregue por Deus ao líder
dos escravos hebreus que saíam do cativeiro do Egito: Moisés.
Por muito tempo, essa imagem de Deus falando a Moisés e escrevendo
os mandamentos com raios em lâminas de pedra ficou em nossa
memória, reforçada ainda por filmes como Os Dez Mandamentos
de Chalton Heston. Mas como obras primas de Deus estamos fadados
ao desenvolvimento como toda a sua criação. Hoje sabemos
que existe um significado muito maior por trás dessa história
aparentemente mágica.
O decálogo foi sistematizado
no final do Reino do Norte (que se deu em 926 a.C. com a invasão
assíria) como uma síntese das principais leis e metas
que deviam reger Israel, tendo como princípio básico,
preservar a liberdade do povo, mantendo-o livre de uma sociedade
opressora que escravizava e, por conseguinte, excluía, bem
como elaborar um projeto de reorganização da sociedade
israelita, esfacelada em decorrência de sua escravização
no Egito. Era de fundamental importância para o povo de Israel
assegurar uma identidade religiosa em torno de Javé (monoteísmo)
visto que, devido a um longo processo histórico marcado por
invasões e dominações estrangeiras, o politeísmo
- e com ele as idolatrias - influenciava sobre maneira as relações.
Mesmo depois de muito sofrimento,
o povo israelita reproduzia, de certa forma, as injustiças
que sofria no cativeiro: existia uma forte influência, como
já foi dito, de deuses estrangeiros (Ex 20, 23; 22, 19),
que ocasionava divisões e consequentemente, perda da identidade
do grupo; os mais abastados mantinham um sistema econômico
escravagista (Ex 21, 12.13); os estrangeiros eram discriminados
(Ex 23,9); muitos pobres e indigentes (Ex 23,3) enquanto que uns
enriqueciam; sequestros (Ex 21,16), roubos, brigas e assassinatos
(Ex 21,1-3) por causa de terras, mulheres e animais; destruição
de colheitas por vingança; falsos testemunhos (Ex 23,1);
suborno e muitas outras coisas que não os qualificariam como
o povo escolhido.
Mas o era de fato. Olhando para tal
situação faz-se necessário relembrarmos o que
nos fala Ex 20,2: " Eu sou o Senhor, teu Deus,
que te fiz sair da Terra do Egito, da casa da servidão".
Isso se constata na presença
de Deus na trajetória deste povo. Essa presença não
era uma coisa mágica como nos foi passado pelos escritores
bíblicos, mas a notamos nas motivações e na
força propulsora que gerou Israel. Foram determinantes as
respostas dadas aos conflitos cotidianos baseados em questões
éticas, tendo como juiz supremo aquele que os tirou da terra
da escravidão: Javé.
As instituições
já não davam mais conta dos conflitos sociais existentes
em Israel; como tentativa de agregar o povo debaixo de uma só
tenda, a sistematização do decálogo foi fundamental
para reforçar a identidade do mesmo e defender os mais fracos
da sociedade existente. A unidade em torno de Javé e o respeito
às suas leis garantiriam a sobrevivência de Israel
como um povo frente aos outros povos. Essa identidade foi fincada
na alma israelita a partir do Decálogo; organizando a sociedade
política e economicamente de forma teocrática, com
Javé no centro das relações.
Evidentemente, Deus se fez presente
na construção desses mandamentos. Não daquela
forma mágica que vemos nos filmes de Hollywood, mas sim,
na trajetória de um povo em busca da felicidade de forma
ética; prezando e defendendo os excluídos da sociedade,
na busca incessante por justiça, na harmonia entre as pessoas,
na garantia de fraternidade. Deus se faz presente em nosso meio
nos dando forças para romper as correntes das diferenças,
das desigualdades, do egoísmo; nos motiva a lutar por um
mundo mais justo e fraterno. Por isso nos abençoou desde
o nosso nascimento, deu-nos a capacidade de amar o próximo
e de evoluir, organicamente, intelectualmente e espiritualmente.
Diante do que foi apresentado nesta breve abordagem
sobre o Decálogo e o que o mesmo representou para a história
do povo de Israel, cabe a nós, depois de uma reflexão
entender de fato o verdadeiro sentido das leis (vista como verdadeiro
código ético) para aquele povo a fim de que não
tiremos conclusões precipitadas através de uma leitura
fundamentalista deste texto que compreende todo o capítulo
20 do Êxodo. |
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