PRECISA-SE DE PROFETAS
   

      O profeta é um homem que acredita fielmente nos seus ideais e sonhos. Ele é capaz de enfrentar  qualquer dificuldade para levar avante o seu projeto de vida. Geralmente este projeto não está separado de uma visão humana e libertadora. O profeta traz em seu íntimo a certeza de que a vida sempre superará a morte porque quem o impulsiona a agir nessa direção é o Deus criador, o Deus que gera e sustenta essa mesma vida. É caminhando nesse sentido que queremos trazer para a nossa página bíblica desse mês a atuação de um dos grandes profetas que lutou e defendeu a vontade de Javé numa época difícil, em que as condições para formação integral do homem eram quase inexistentes. Para o profeta o direito a uma vida digna é indispensável na implantação do projeto de Deus. A vida deve estar acima de qualquer pretensão humana em todas as suas dimensões e níveis: social, político, econômico e religioso.
      O profeta é animador, entusiasta e aquele que encoraja o seu povo para uma atuação que corresponda aos anseios de uma vida de melhor qualidade possível. Porém, é também aquele que sofre e sente os dramas de uma nação, de um povo sofredor. Diante das situações de calamidade o profeta luta e grita do mais profundo de suas entranhas: Deus não está de acordo com a manutenção da dominação que tem como conseqüência a exploração e destruição da dignidade humana.
      Juntamente com o profeta Sofonias iremos perceber que o Deus da vida age até mesmo nos momentos mais tristes e infelizes da vida do povo. Sofonias quer com seu jeito de ser profeta entusiasmar as comunidades e seu povo e dizer que vale a pena lutar pela recuperação da dignidade da vida humana.
      Profeta: O homem e seu estilo
      O nome Sofonias, em hebraico Sefanya, significa "Javé protegerá", é um dos profetas menores, bisneto do rei Ezequias. Pregou em Judá no reinado de Josias antes do ano 622 a.C. É contemporâneo de Naum e de Jeremias.
      Sofonias distingue-se pelo rigor moral, rude clareza e franqueza absoluta, simplicidade e energia, baseadas na certeza da ação de Javé na história.
      A profecia de Sofonias se enquadra no tempo do rei Josias (640-609). "A mensagem de Sofonias    resume-se num anúncio do Dia de Iahweh , catástrofe que atingirá tanto as nações estrangeiras quanto Judá. O Estado de Judá é condenado por suas falhas religiosas e morais, inspiradas pelo orgulho e a revolta (3,1.11). Sofonias possui uma noção profunda do pecado: é um atentado pessoal contra o Deus vivo. O castigo das nações é uma advertência (3,7), que deveria reconduzir o povo à obediência e à humildade (2,3), e a salvação só é prometida a um "resto" humilde e modesto (3,12-13). O messianismo de Sofonias se reduz a este horizonte, que é, sem dúvida, limitado, mas que descobre o conteúdo espiritual das promessas.
      Descrevendo o contexto histórico e a ideologia predominante da época de Sofonias poderemos situar bem o porquê da atitude do profeta em lutar em favor de mais condições favoráveis para o crescimento da vida.
       Contexto Histórico
       Na época de Sofonias a nação Assíria forçava um crescimento do seu território. Essa expansão significava a submissão de muitos países pequenos. Os Estados, posteriormente províncias, não conseguiram resistir à pressão do grande Império assírio e acabaram aceitando sua imposição por meio da máquina de guerra e da força ideológico-religiosa. Tanto é verdade que a corrupção, fruto da injustiça, era a razão do grito do profeta, que denunciava, ameaçava e condenava os que apoiavam o modo estrangeiro de ser.
      No centro de suas profecias estão as críticas políticas e religiosas, dirigidas tanto aos ministros e os príncipes da corte, quanto aos que aderiram aos costumes estrangeiros.
Ideologia
      Todo o relato de Sofonias 1,4-13 nos quer transmitir uma ideologia que origina-se de uma situação bem concreta.
    "Sofonias denunciou, como os grandes profetas do século VIII, as diversas transgressões contra Deus e contra o próximo. Atacou a idolatria cultual, as injustiças, o materialismo, a indiferença religiosa, os abusos das autoridades, as ofensas cometidas pelos estrangeiros contra o povo de Deus. E afirmou claramente que esta situação era insustentável, que ela provocaria forçosamente o castigo. Sofonias, contudo, não se compraz em condenar. Não obstante as suas terríveis denúncias, a leitura de Sofonias não nos surpreende. Antes transforma-se em estímulo para a ação, em agente de mudança. Foi isso que ele pretendeu com a sua atividade: fomentar a reforma de Josias.".
       O grande pano de fundo para sustentar toda uma ideologia conformista está em incutir na mente do povo, simples e humilde, que Deus não se preocupa com o mal, nem com o bem.
Dizer que Deus está ausente da vida do povo é negar a própria vida dada por esse Deus. Essa forte concepção de um Deus que não cuidava e nem observava seu povo legitimava o massacre e a escravidão dos que tinham poucas condições.
       A idéia de um Deus passivo estava se enraizando no dia-a-dia do povo, porém Javé desmascara, por meio do profeta Sofonias, essa imagem negativa de um Deus inoperante. Esse Deus, ao contrário, está bastante vivo e atento para o que ocorre com seu povo. Ele eliminará todos os que feriram o seu povo.
E hoje, qual a nossa reação diante de muitos momentos em que a vida não é respeitada e sim espoliada e diminuída? Poderíamos com bastante convicção dizer que falta um grande senso de consciência social diante dos graves problemas sociais que nos atingem.
        Hoje
      Queremos entrar em contato, hoje, com aqueles que repetem diariamente uma verdadeira blasfêmia: Deus não está preocupado com o que acontece de bom ou de ruim no mundo. Estamos falando aqui de todos os descrentes que não acreditam na presença de Deus em nossas vidas. Esses desconfiados são pessoas auto- suficientes e orgulhosas, que duvidam que Deus está vivo no meio de nós. São capazes de falar abertamente da ausência de Deus somente àqueles que querem impedir o desenvolvimento dos que não têm possibilidade, nem oportunidade, de progresso na vida. Quem age assim, quer manipular os que não encontram a quem pedir socorro, humanamente falando. E com isso, os exploradores se aproveitam de seus esforços humanos para gerar mais produção e mais trabalho.
      Os que negam a Deus não reconhecem as reivindicações dos necessitados, ao contrário, passam a abusar do mínimo que ainda lhes restam, seu corpo, sua mente, sua vida. Estamos falando dos que detêm o poder do conhecimento intelectual e religioso, que ao invés de usá-lo em favor do povo, usam-no para levá-lo à degradação da vida, ao medo, à culpa, à morte.
       Para ser mais claro. Os desonestos polí-ticos, os maus religiosos, os incompetentes que dirigem a sociedade, que se apóiam em suas loucuras egocêntricas, são responsáveis pela difícil situação em que se encontra o povo pobre e oprimido. Para legitimar suas ambições pessoais dizem, ainda hoje, que Deus não existe, que não os observa em suas ações. Para ficarem em paz com suas consciências dizem que Deus não escuta o clamor dos oprimidos.
       O desumano desvia o verdadeiro sentido da ação de Deus para encobrir a verdadeira intenção de suas ações. "Diz o insensato no seu coração: 'Deus não existe!'. Insanos e dementes que são, e tragados por suas vaidades, esquecem o mais claro e evidente: Deus é o Deus da vida e não da negação de tudo o quanto fizera por Israel: libertação, dom da lei e aliança.
      Portanto para finalizar queremos entusiasmados pela ação do profeta dizer: Quanto mais esclarecidos a respeito de nossos problemas moral-econômico-sociais, seremos mais participativos, atuantes e mais comprometidos com a igualdade e partilha. Aí sim estaremos do lado do anúncio do Evangelho. Porém, se não tivermos consciência desse envolvimento, estaremos escolhendo o egoísmo e o acúmulo. Conseqüentemente di-remos não à vida e sim ao projeto econômico atual. Projeto que corrompe, massacra e diminui a dignidade do homem tirando-lhe o que existe de mais sagrado: a sua dignidade de pessoa humana.

 
© - 2006 - Salvatorianos - Todos os direitos reservados