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Neste mês, queremos trazer ao cenário de nossas
vidas a reflexão sobre o livro de Cantares (Cânticos
dos Cânticos). Ele está incluído na lista dos
livros sapienciais. Sua temática aborda questões consideradas
tabu, como o amor, a sexualidade e o erótico.
Em que consiste o conteúdo
de Cantares? Poemas “profanos”? Será um cântico
erótico proclamado por um cancioneiro litúrgico? Escândalo!
Por que evitamos, escondemos, negamos? Não há motivos
para assombros, pois, a Bíblia, de forma belíssima,
descreve a paixão e o amor como expressões sensíveis,
honestas e transparentes, revelando, no sincero amor humano, um
Deus do carinho, da ternura, da relação íntima.
Que outros dados podem ser acrescentados?
Pela não existência de respostas claras, ao longo da
história, nasceram várias interpretações,
ou seja, caminhos diferentes que trouxeram considerações
distintas com relação à intenção
do texto.
Uma linha de interpretação,
denominada de mística ou alegórica, ressalta Cantares
como descrição da história de amor entre um
homem e uma mulher, comparado com o amor de Deus pelo seu povo.
Essa é a que resgatamos com maior freqüência,
comparando o amor à labareda de Javé (Ct. 8, 6).
Contexto Histórico
O livro de Cantares, em uma interpretação
popular ou histórica do povo de Israel, pode ser contextualizado
num clima pós-exílico (depois do exílio da
Babilônia), em 450 a.C.
Este período é fortemente marcado pela emergência
de projetos de reconstrução – redistribuição
e ocupação da terra. Assim, questões referentes
à Lei do puro e impuro; projetos de exclusão dos estrangeiros;
o aprofundamento da Lei do Resgate e do Levirato (amparo da mulher,
em caso de morte do marido) etc, são próprias deste
tempo de reestruturação e reformas. No entanto, estas
leis foram utilizadas como forma de exploração.
Neste tempo de confluências
culturais, destacam-se as reformas implementadas por Esdras e Neemias.
Em 428 a.C., Esdras decretou que as mulheres estrangeiras (mesmo
as casadas com judeus) e seus filhos deveriam ser expulsos de Israel.
Além disso, a mulher era objeto de venda, usado como meio
de sustentação do sistema dos Reis. A reforma de Neemias
e Esdras significou a consolidação do sistema religioso
do Templo.
Neste contexto, partimos do princípio
de que Cantares foi elaborado por várias mãos e principalmente
por mãos de mulheres, que sentiam o peso da exploração
sobre seus corpos e que lutavam com paixão pelo seu amado.
Portanto, Cantares consiste em cantigas de amor reunidas num conjunto
de poemas. Pode ser inserido como uma proposta de projeto de reconstrução
social.
Aproximemo-nos de alguns
versículos do capítulo oitavo:
“O amor é forte como a morte
- 5 “Quem é essa que sobe do deserto , apoiada no seu
amado?” 6.Grava-me, como um
selo em teu coração,como um selo em teu braço;
pois o amor é forte, é como a morte.
7. Quisesse alguém dar tudo o que tem para comprar o amor...
Seria desprezado”.
Neste contexto, em que o sexo e o
amor eram manipulados em vista de outros interesses, este livro
reafirma o valor e a dignidade da sexualidade e do amor como elementos
constitutivos e inalienáveis do ser humano. A mulher que
sobe do deserto, representa este resgate, pois o deserto simboliza
o lugar da gestação da esperança, da decisão
e do cultivo das memórias populares.
Ao lado dos livros de Rute, Judite
e Ester, Cantares reafirma a dignidade da mulher no período
pós-exílico, marcado pelo machismo e discriminação:
8 “Que faremos de nossa irmã, no dia em que nela se
falar? 10 Sou mesmo um baluarte e meus seios são torres de
verdade?! Então, sou a seus olhos como a que encontra a paz”.
Em Cantares aparece a determinação,
um amor apaixonado de uma mulher em busca de seu amado pelos campos,
pelas vinhas, macieiras fugindo dos irmãos que a perseguem
(Ct. 8, 8), que querem comercializar seu corpo.
Em resumo, em Ct 8, 8-14, encontramos
a denúncia da exploração do corpo de menina,
associado à moeda, mercadoria e comércio. A amada
está dizendo que a prata não compra a sua sexualidade.
A casa dos irmãos é o lugar do comércio da
sexualidade. O valor da mulher está relacionado com os seios.
No texto, a jovem grita e protesta não aceitando a comercialização
de seu corpo.
Cantares está voltado
para a palavra SHALOM (PAZ), que significa estar por inteiro, alegria
em todos os sentidos na relação com o outro, paz como
plenitude do conhecimento mútuo. É um canto de paixão
e rebeldia que valoriza a sexualidade como processo de aprendizado.
14 “Foge logo, ó meu amado!”
É assim que o livro inicia
o seu desfecho, deixando transparecer que a perseguição
e a morte não devem sair vitoriosas. Ao contrário,
o amado deve fugir para o deserto, para o lugar da esperança,
da plenitude do encontro.
Os poemas estão marcados pelos
encontros e desencontros entre a amada e o amado, numa época
em que vários impedimentos surgiam na relação
dos casais: lei, raça e templo. Por causa da raça,
o amor era impossível e proibido qualquer envolvimento com
a estrangeira.
Atualização
Tendo percorrido estes trechos
de Cantares, fica a certeza de que o amor é celebrado em
toda a sua alegria física. O amor humano é bom. Não
precisa ser justificado por argumentos moralistas, que o desqualifiquem
ou argumentos liberais, que o transformem em edonismo, fazendo do
semelhante objeto para se obter interesses egoístas. O amor
é poder que exige entrega total e relacional. É uma
eterna tensão em busca da unidade.
Na lógica do mercado
globalizado, a exploração econômica do amor
é ainda mais intensa. Se outrora a mulher não podia
escolher quem seria seu companheiro, hoje a mulher é, violentamente,
reduzida à mercadoria sexual. A realidade sócio-cultural,
na qual estamos inseridos, faz um forte apelo ao pornográfico,
usurpando de forma grotesca a sexualidade, coisificando o erótico,
o sensual e promovendo uma exploração do corpo, especialmente
do corpo feminino. Nossa linguagem é carregada de preconceitos
e risos sarcásticos quando falamos de sexualidade, de amor,
até mesmo porque estas dimensões humanas são
compreendidas apenas como genitalidade. O amor foi reduzido a mercadoria,
cujo consumo é estimulado e direcionado pela publicidade.
Os pecados contra a sexualidade estão ligados às discriminações,
explorações do trabalho, ao uso do outro para se obter
vantagens pessoais e à negação do lazer.
O teólogo Márcio Fabri
dos Anjos afirma que a sexualidade encontra-se dentro do dinamismo
de libertação do ser humano, onde ela se apresenta
como fator de busca da vida do outro como busca da plenitude. Encontramo-nos
com o outro não como coisa, mas como semelhante. Daí
que o gesto maior é o amor que nos leva à doação
da vida pelo irmão. “Nisto conhecemos o amor: ele deu
a vida por nós; também nós devemos dar a nossa
vida por nossos irmãos” 1 Jo 3, 16.
A sexualidade deve ser pensada como
fator integrante de nossa vocação à vida humana
e cristã. Perdem-se outros valiosos sentidos quando reduzimos
o amor humano apenas ao aspecto genital. A sexualidade é
um modo de ser que se encontra presente em todas as manifestações
do humano; é obra do Criador. O amor e a paixão são
plenamente positivos e possuem força para enfrentar até
a morte. O dinheiro é desprezível sempre que toda
pessoa se julga capaz de comprar o amor.
Dentro do amor e da amizade humana
se faz a experiência do amor de Deus. Está mais do
que na hora de resgatarmos a sexualidade para o eixo decisivo que
a faz ser Dom de Deus: a abertura, solidariedade, festa e compromisso
com o outro em nossa vida. |
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