O AMOR HUMANO É UMA FAÍSCA DIVINA
"Liomar Contini / Antônio Neto"

      Neste mês, queremos trazer ao cenário de nossas vidas a reflexão sobre o livro de Cantares (Cânticos dos Cânticos). Ele está incluído na lista dos livros sapienciais. Sua temática aborda questões consideradas tabu, como o amor, a sexualidade e o erótico.
      Em que consiste o conteúdo de Cantares? Poemas “profanos”? Será um cântico erótico proclamado por um cancioneiro litúrgico? Escândalo! Por que evitamos, escondemos, negamos? Não há motivos para assombros, pois, a Bíblia, de forma belíssima, descreve a paixão e o amor como expressões sensíveis, honestas e transparentes, revelando, no sincero amor humano, um Deus do carinho, da ternura, da relação íntima.
      Que outros dados podem ser acrescentados? Pela não existência de respostas claras, ao longo da história, nasceram várias interpretações, ou seja, caminhos diferentes que trouxeram considerações distintas com relação à intenção do texto.
      Uma linha de interpretação, denominada de mística ou alegórica, ressalta Cantares como descrição da história de amor entre um homem e uma mulher, comparado com o amor de Deus pelo seu povo. Essa é a que resgatamos com maior freqüência, comparando o amor à labareda de Javé (Ct. 8, 6).
      Contexto Histórico
      O livro de Cantares, em uma interpretação popular ou histórica do povo de Israel, pode ser contextualizado num clima pós-exílico (depois do exílio da Babilônia), em 450 a.C.
Este período é fortemente marcado pela emergência de projetos de reconstrução – redistribuição e ocupação da terra. Assim, questões referentes à Lei do puro e impuro; projetos de exclusão dos estrangeiros; o aprofundamento da Lei do Resgate e do Levirato (amparo da mulher, em caso de morte do marido) etc, são próprias deste tempo de reestruturação e reformas. No entanto, estas leis foram utilizadas como forma de exploração.
       Neste tempo de confluências culturais, destacam-se as reformas implementadas por Esdras e Neemias. Em 428 a.C., Esdras decretou que as mulheres estrangeiras (mesmo as casadas com judeus) e seus filhos deveriam ser expulsos de Israel. Além disso, a mulher era objeto de venda, usado como meio de sustentação do sistema dos Reis. A reforma de Neemias e Esdras significou a consolidação do sistema religioso do Templo.
      Neste contexto, partimos do princípio de que Cantares foi elaborado por várias mãos e principalmente por mãos de mulheres, que sentiam o peso da exploração sobre seus corpos e que lutavam com paixão pelo seu amado. Portanto, Cantares consiste em cantigas de amor reunidas num conjunto de poemas. Pode ser inserido como uma proposta de projeto de reconstrução social.
      Aproximemo-nos de alguns versículos do capítulo oitavo:
     “O amor é forte como a morte - 5 “Quem é essa que sobe do deserto , apoiada no seu amado?”       6.Grava-me, como um selo em teu coração,como um selo em teu braço; pois o amor é forte, é como a morte.
7. Quisesse alguém dar tudo o que tem para comprar o amor... Seria desprezado”.
      Neste contexto, em que o sexo e o amor eram manipulados em vista de outros interesses, este livro reafirma o valor e a dignidade da sexualidade e do amor como elementos constitutivos e inalienáveis do ser humano. A mulher que sobe do deserto, representa este resgate, pois o deserto simboliza o lugar da gestação da esperança, da decisão e do cultivo das memórias populares.
      Ao lado dos livros de Rute, Judite e Ester, Cantares reafirma a dignidade da mulher no período pós-exílico, marcado pelo machismo e discriminação:
8 “Que faremos de nossa irmã, no dia em que nela se falar? 10 Sou mesmo um baluarte e meus seios são torres de verdade?! Então, sou a seus olhos como a que encontra a paz”.
      Em Cantares aparece a determinação, um amor apaixonado de uma mulher em busca de seu amado pelos campos, pelas vinhas, macieiras fugindo dos irmãos que a perseguem (Ct. 8, 8), que querem comercializar seu corpo.
      Em resumo, em Ct 8, 8-14, encontramos a denúncia da exploração do corpo de menina, associado à moeda, mercadoria e comércio. A amada está dizendo que a prata não compra a sua sexualidade. A casa dos irmãos é o lugar do comércio da sexualidade. O valor da mulher está relacionado com os seios. No texto, a jovem grita e protesta não aceitando a comercialização de seu corpo.
       Cantares está voltado para a palavra SHALOM (PAZ), que significa estar por inteiro, alegria em todos os sentidos na relação com o outro, paz como plenitude do conhecimento mútuo. É um canto de paixão e rebeldia que valoriza a sexualidade como processo de aprendizado.
14 “Foge logo, ó meu amado!”
      É assim que o livro inicia o seu desfecho, deixando transparecer que a perseguição e a morte não devem sair vitoriosas. Ao contrário, o amado deve fugir para o deserto, para o lugar da esperança, da plenitude do encontro.
      Os poemas estão marcados pelos encontros e desencontros entre a amada e o amado, numa época em que vários impedimentos surgiam na relação dos casais: lei, raça e templo. Por causa da raça, o amor era impossível e proibido qualquer envolvimento com a estrangeira.
       Atualização
       Tendo percorrido estes trechos de Cantares, fica a certeza de que o amor é celebrado em toda a sua alegria física. O amor humano é bom. Não precisa ser justificado por argumentos moralistas, que o desqualifiquem ou argumentos liberais, que o transformem em edonismo, fazendo do semelhante objeto para se obter interesses egoístas. O amor é poder que exige entrega total e relacional. É uma eterna tensão em busca da unidade.
       Na lógica do mercado globalizado, a exploração econômica do amor é ainda mais intensa. Se outrora a mulher não podia escolher quem seria seu companheiro, hoje a mulher é, violentamente, reduzida à mercadoria sexual. A realidade sócio-cultural, na qual estamos inseridos, faz um forte apelo ao pornográfico, usurpando de forma grotesca a sexualidade, coisificando o erótico, o sensual e promovendo uma exploração do corpo, especialmente do corpo feminino. Nossa linguagem é carregada de preconceitos e risos sarcásticos quando falamos de sexualidade, de amor, até mesmo porque estas dimensões humanas são compreendidas apenas como genitalidade. O amor foi reduzido a mercadoria, cujo consumo é estimulado e direcionado pela publicidade. Os pecados contra a sexualidade estão ligados às discriminações, explorações do trabalho, ao uso do outro para se obter vantagens pessoais e à negação do lazer.
      O teólogo Márcio Fabri dos Anjos afirma que a sexualidade encontra-se dentro do dinamismo de libertação do ser humano, onde ela se apresenta como fator de busca da vida do outro como busca da plenitude. Encontramo-nos com o outro não como coisa, mas como semelhante. Daí que o gesto maior é o amor que nos leva à doação da vida pelo irmão. “Nisto conhecemos o amor: ele deu a vida por nós; também nós devemos dar a nossa vida por nossos irmãos” 1 Jo 3, 16.
      A sexualidade deve ser pensada como fator integrante de nossa vocação à vida humana e cristã. Perdem-se outros valiosos sentidos quando reduzimos o amor humano apenas ao aspecto genital. A sexualidade é um modo de ser que se encontra presente em todas as manifestações do humano; é obra do Criador. O amor e a paixão são plenamente positivos e possuem força para enfrentar até a morte. O dinheiro é desprezível sempre que toda pessoa se julga capaz de comprar o amor.
      Dentro do amor e da amizade humana se faz a experiência do amor de Deus. Está mais do que na hora de resgatarmos a sexualidade para o eixo decisivo que a faz ser Dom de Deus: a abertura, solidariedade, festa e compromisso com o outro em nossa vida.

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