NO PRINCÍPIO ERA O PROJETO
"Ivanir Signorini / vanderlei Roque Signorini / Flávio da Silva"

      A vida é um mistério. É uma benção divina. É o grande dom de Deus para a humanidade. É resultado do ato criador de Deus. Demonstra a força e o poder de Deus que cria e organiza tudo em favor da vida. E que constantemente nos conclama a lutar pela vida. Pois a vida em plenitude é o próprio sentido da vida.
A Bíblia que se traduz na própria palavra de Deus, nos apresenta Deus como criador. Foi a ação Dele que fez surgir o mundo, o povo, as maravilhas do Êxodo. O ato criador de Deus venceu a desordem (o caos) e estabeleceu a ordem ( o cosmos), para que a vida humana fosse possível. Trevas, água, deserto são forças de morte que foram enfrentadas e organizadas para criar um espaço habitável para a vida. E a vida humana é o ponto alto do ato criador de Deus: homem e mulher foram feitos “à imagem e semelhança de Deus” (Gn 1,27).
       Gênesis capítulos 1-11 é o retrato do projeto que Deus tem para a humanidade. A descrição da criação mostra o projeto de Deus e descreve a missão do homem e da mulher: ser imagem de Deus (Gn 1,27) e cuidar da criação em nome de Deus (Gn 1,28-30). Os eventos aqui descritos são a criação do universo e da humanidade (Gn 1,1-2,4), a criação do jardim (Gn 3,1-24), Caim e Abel (4,1-16), o dilúvio e a arca de Noé (Gn 6,5-9,17) e a Torre de Babel (Gn 11,1-9). A partir do capítulo 12 do livro do Gênesis, o Povo de Deus é chamado a viver a benção da vida.
      Discernindo o projeto para tentar vivê-lo
      No momento em que o povo de Israel sente a necessidade de fazer a memória destes eventos do   Gênesis, está no pós-exílio (depois de 538 a. C.), tentando libertar-se da cultura babilônica e de seus mitos criacionais que justificavam a religião, a política e a opressão do povo por este mesmo império. Gênesis 1-11 além de trazer as principais divergências entre as culturas babilônica e judaica, oferece uma possibilidade de vivência, de convivência e de relações humanas que nada mais é do que o projeto que Deus tem para a humanidade:
      * Criação do universo (Gn 1,1-2,4): os deuses babilônicos brigam entre si e são cultuados na natureza (sol, lua, estrelas, astros) e não há harmonia entre deuses e criação. O Deus de Israel criou o universo e tudo o que há nele, e a natureza tem que ser respeitada, mas ao mesmo tempo ela não é Deus (como eram considerados os astros na concepção de mundo babilônica). Enquanto os babilônicos eram politeístas, acreditavam na existência de vários deuses, os judeus acreditavam no Deus único, criador e organizador de tudo.
     * Criação do ser humano (Gn 1,26-27): o ser humano na cultura babilônica foi criado para ser escravo dos deuses, ou seja, para fazer as coisas que os deuses não queriam fazer. Já para os judeus os humanos foram criados à imagem e semelhança de Deus.
     * Criação do jardim (Gn 3,1-24): se para os babilônicos o ser humano era joguete nas mãos dos deuses, para os judeus o ser humano é livre e foi criado para viver a felicidade no jardim, que significa o grande projeto de Deus para a humanidade. Assim, o ser humano com suas ações é o grande responsável pela história, inclusive pelo mal que há nela. Portanto, o mal não vem de Deus.
     * Caim e Abel (Gn 4, 1-16): na concepção babilônica, os dons dos seres humanos devem ser colocados a serviço do rei, tido como o filho de deus na terra. Para os judeus, os dons tem que ser colocados a serviço do outro, da comunidade, do povo. As limitações humanas indicam a dependência e a necessidade que temos dos outros. Colocar-se a serviço do outro é estar servindo a Deus e realizando a grande fraternidade universal, vivendo a filiação divina.
     * Dilúvio e arca de Noé (Gn 6,5-9,17): na cultura babilônica uma família com sua descendência foi salva de um dilúvio pelos deuses. Este mito era utilizado pela família real para a justificação do poder do rei como sendo filho de Deus, a quem o povo deveria servir como escravo. Na concepção judaica, Deus salva Noé, uma pessoa simples, humilde e justa, e seus descendentes. Para os judeus, devemos prestar culto e servir somente a Deus e não devemos prestar honrarias a nenhum ser humano.
     * Torre de Babel (Gn 11,1-9): representa o projeto imperialista de sociedade babilônico onde todos devem falar e agir uniformemente, ou seja, todos deveriam viver de uma determinada maneira. Não era permitido pensar e agir diferentemente, não se respeitava as diferenças. No projeto de construção da sociedade judaico, as diferenças, o pensar e agir diferentes, são fundamentais para um projeto de humanização, onde todos são considerados e respeitados como seres humanos e não como marionetes nas mãos de alguns. O Ser diferente não constitui, portanto, nenhum castigo divino.
      De uma maneira sintética, a partir de Gn 1-11, poderíamos dizer que o projeto que Deus tem para a humanidade, é que esta viva a felicidade no jardim (no mundo), respeitando a criação, a natureza e os seres humanos, vivendo a fraternidade, respeitando as diferenças, numa constante conversão de vida. Como a proposta que Deus apresentou não conseguiu ser vivida por toda a humanidade, Deus escolhe uma nação, Israel, no exílio, para que viva estes valores através de um projeto, a comunidade cúltica reunida ao redor do templo, sob os sacerdotes. Assim, desde Gênesis capítulo 12 até Jesus, perpassando o Pentateuco, os Livros Históricos, os Livros Proféticos e os Livros Sapienciais, os escritos bíblicos refletem como os judeus tentaram viver este projeto.
      “Eu vim para que todos tenham vida em plenitude”: vivência do projeto
       Jesus, em sua época, critica a forma como este projeto de Deus estava sendo vivido e passa a vivê-lo em radicalidade. É aqui que Jesus vive sua filiação divina, o ser Filho de Deus. Por isso que Jesus é o Projeto, o Verbo de Deus (Jo1,1). Se Jesus conseguiu viver em plenitude os valores e o projeto de Deus, nós hoje, como cristãos, e portanto seus seguidores, devemos seguir o seu exemplo e vivermos o projeto  que Deus tem para a humanidade.
      Celebrar o advento é celebrar, depois de 2000 anos da vinda e presença de Jesus em nosso meio, a constante vinda, chegada e presença de Deus em nossas vidas. É sobretudo, celebrar a vida e a ressurreição acontecendo em cada um que se dispõe em se superar em direção da bondade e da misericórdia e se põe a serviço dos outros. Enfim, ser “imagem e semelhança de Deus” neste mundo é imitar a Jesus Cristo e fazer o que ele fez, ou seja, enfrentar as forças do mal e da morte que destroem a vida, lutar pela vida e organizá-la para que possa ser vida em abundância.

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