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A vida é um mistério. É uma benção
divina. É o grande dom de Deus para a humanidade. É
resultado do ato criador de Deus. Demonstra a força e o poder
de Deus que cria e organiza tudo em favor da vida. E que constantemente
nos conclama a lutar pela vida. Pois a vida em plenitude é
o próprio sentido da vida.
A Bíblia que se traduz na própria palavra de Deus,
nos apresenta Deus como criador. Foi a ação Dele que
fez surgir o mundo, o povo, as maravilhas do Êxodo. O ato
criador de Deus venceu a desordem (o caos) e estabeleceu a ordem
( o cosmos), para que a vida humana fosse possível. Trevas,
água, deserto são forças de morte que foram
enfrentadas e organizadas para criar um espaço habitável
para a vida. E a vida humana é o ponto alto do ato criador
de Deus: homem e mulher foram feitos “à imagem e semelhança
de Deus” (Gn 1,27).
Gênesis capítulos
1-11 é o retrato do projeto que Deus tem para a humanidade.
A descrição da criação mostra o projeto
de Deus e descreve a missão do homem e da mulher: ser imagem
de Deus (Gn 1,27) e cuidar da criação em nome de Deus
(Gn 1,28-30). Os eventos aqui descritos são a criação
do universo e da humanidade (Gn 1,1-2,4), a criação
do jardim (Gn 3,1-24), Caim e Abel (4,1-16), o dilúvio e
a arca de Noé (Gn 6,5-9,17) e a Torre de Babel (Gn 11,1-9).
A partir do capítulo 12 do livro do Gênesis, o Povo
de Deus é chamado a viver a benção da vida.
Discernindo o projeto para tentar
vivê-lo
No momento em que o povo de Israel
sente a necessidade de fazer a memória destes eventos do
Gênesis, está no pós-exílio (depois
de 538 a. C.), tentando libertar-se da cultura babilônica
e de seus mitos criacionais que justificavam a religião,
a política e a opressão do povo por este mesmo império.
Gênesis 1-11 além de trazer as principais divergências
entre as culturas babilônica e judaica, oferece uma possibilidade
de vivência, de convivência e de relações
humanas que nada mais é do que o projeto que Deus tem para
a humanidade:
* Criação do universo
(Gn 1,1-2,4): os deuses babilônicos brigam entre si e são
cultuados na natureza (sol, lua, estrelas, astros) e não
há harmonia entre deuses e criação. O Deus
de Israel criou o universo e tudo o que há nele, e a natureza
tem que ser respeitada, mas ao mesmo tempo ela não é
Deus (como eram considerados os astros na concepção
de mundo babilônica). Enquanto os babilônicos eram politeístas,
acreditavam na existência de vários deuses, os judeus
acreditavam no Deus único, criador e organizador de tudo.
* Criação do ser humano (Gn
1,26-27): o ser humano na cultura babilônica foi criado para
ser escravo dos deuses, ou seja, para fazer as coisas que os deuses
não queriam fazer. Já para os judeus os humanos foram
criados à imagem e semelhança de Deus.
* Criação do jardim (Gn 3,1-24):
se para os babilônicos o ser humano era joguete nas mãos
dos deuses, para os judeus o ser humano é livre e foi criado
para viver a felicidade no jardim, que significa o grande projeto
de Deus para a humanidade. Assim, o ser humano com suas ações
é o grande responsável pela história, inclusive
pelo mal que há nela. Portanto, o mal não vem de Deus.
* Caim e Abel (Gn 4, 1-16): na concepção
babilônica, os dons dos seres humanos devem ser colocados
a serviço do rei, tido como o filho de deus na terra. Para
os judeus, os dons tem que ser colocados a serviço do outro,
da comunidade, do povo. As limitações humanas indicam
a dependência e a necessidade que temos dos outros. Colocar-se
a serviço do outro é estar servindo a Deus e realizando
a grande fraternidade universal, vivendo a filiação
divina.
* Dilúvio e arca de Noé (Gn
6,5-9,17): na cultura babilônica uma família com sua
descendência foi salva de um dilúvio pelos deuses.
Este mito era utilizado pela família real para a justificação
do poder do rei como sendo filho de Deus, a quem o povo deveria
servir como escravo. Na concepção judaica, Deus salva
Noé, uma pessoa simples, humilde e justa, e seus descendentes.
Para os judeus, devemos prestar culto e servir somente a Deus e
não devemos prestar honrarias a nenhum ser humano.
* Torre de Babel (Gn 11,1-9): representa
o projeto imperialista de sociedade babilônico onde todos
devem falar e agir uniformemente, ou seja, todos deveriam viver
de uma determinada maneira. Não era permitido pensar e agir
diferentemente, não se respeitava as diferenças. No
projeto de construção da sociedade judaico, as diferenças,
o pensar e agir diferentes, são fundamentais para um projeto
de humanização, onde todos são considerados
e respeitados como seres humanos e não como marionetes nas
mãos de alguns. O Ser diferente não constitui, portanto,
nenhum castigo divino.
De uma maneira sintética,
a partir de Gn 1-11, poderíamos dizer que o projeto que Deus
tem para a humanidade, é que esta viva a felicidade no jardim
(no mundo), respeitando a criação, a natureza e os
seres humanos, vivendo a fraternidade, respeitando as diferenças,
numa constante conversão de vida. Como a proposta que Deus
apresentou não conseguiu ser vivida por toda a humanidade,
Deus escolhe uma nação, Israel, no exílio,
para que viva estes valores através de um projeto, a comunidade
cúltica reunida ao redor do templo, sob os sacerdotes. Assim,
desde Gênesis capítulo 12 até Jesus, perpassando
o Pentateuco, os Livros Históricos, os Livros Proféticos
e os Livros Sapienciais, os escritos bíblicos refletem como
os judeus tentaram viver este projeto.
“Eu vim para que todos tenham
vida em plenitude”: vivência do projeto
Jesus, em sua época,
critica a forma como este projeto de Deus estava sendo vivido e
passa a vivê-lo em radicalidade. É aqui que Jesus vive
sua filiação divina, o ser Filho de Deus. Por isso
que Jesus é o Projeto, o Verbo de Deus (Jo1,1). Se Jesus
conseguiu viver em plenitude os valores e o projeto de Deus, nós
hoje, como cristãos, e portanto seus seguidores, devemos
seguir o seu exemplo e vivermos o projeto que Deus tem para
a humanidade.
Celebrar o advento é celebrar,
depois de 2000 anos da vinda e presença de Jesus em nosso
meio, a constante vinda, chegada e presença de Deus em nossas
vidas. É sobretudo, celebrar a vida e a ressurreição
acontecendo em cada um que se dispõe em se superar em direção
da bondade e da misericórdia e se põe a serviço
dos outros. Enfim, ser “imagem e semelhança de Deus”
neste mundo é imitar a Jesus Cristo e fazer o que ele fez,
ou seja, enfrentar as forças do mal e da morte que destroem
a vida, lutar pela vida e organizá-la para que possa ser
vida em abundância. |
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