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Mais uma vez o calendário litúrgico nos diz
que estamos na quaresma. Tempo forte de conversão que nos
aponta em direção à páscoa, período
de grande exultação cristã. Mas para entendermos
melhor esse período de grande alegria, se faz necessário
entender alguns acontecimentos marcantes que vêm do passado,
e que perpassa o nosso momento atual.
A libertação como condição
para o surgimento da vida em meio a várias situações
de morte
Quando falamos do passado sugerimos
um retorno ao livro do Êxodo. O acontecimento do Êxodo
marcou para sempre o nascimento de um povo que buscava a sua libertação,
pois os escravos tomaram consciência de sua situação
e clamaram para dela sair. Compreenderam o chamado de Deus para
um novo momento. A nova mentalidade nasceu de um contexto de sofrimento,
por isso, o chamado de Deus para se tornarem um novo povo.
Os hebreus guiados pelo próprio
Deus caminharam no desejo de alcançar a terra prometida.
Conforme Êxodo 3,16-17: o Senhor protege e guarda aqueles
que O amam: Tomei a decisão de intervir em vosso favor, por
causa de tudo o que vos fizeram no Egito, e reafirmo: eu vos farei
subir da opressão do Egito para a terra do canaanita, do
hetita, do emorita, do perizita, do hivita e do iebusita, para a
terra que mana leite e mel.
A aliança concluída
no Sinai, no deserto, sugere um tempo de "noivado" em
que o povo vivia claramente da palavra de Deus, na confiança.
O profeta Oséias nos fala dessa nova aliança entre
Deus e seu povo. Oséias 2,16-17: Eu o levarei ao deserto
e falar-lhe-ei ao coração. E de lá, eu lhe
restituirei as suas vinhas e farei do vale de Akor uma porta de
esperança; lá você responderá como no
tempo da sua juventude, no dia em que subiu da terra do Egito.
A saída do Egito é
a vitória de Yahwé sobre as forças que esmagavam
seu povo, pois o Senhor se revela nas lutas de libertação.
No terceiro Isaías, que vai do capítulo 56 a 66, o
povo sente um vento de esperança e consequentemente uma transformação
da realidade: O Espírito do Senhor Deus está sobre
mim: o Senhor, fez de mim um messias, ele me enviou a levar alegre
mensagem aos humilhados, medicar os que têm o coração
confrangido, proclamar aos cativos a liberdade, aos prisioneiros
a abertura do cárcere, proclamar o ano do favor do Senhor,
confortar todos os enlutados.
A mentalidade do livro do Êxodo
nos mostra a passagem da morte à vida. Ela é pascal.
Remete-nos à ressurreição de Cristo. Por isso,
devemos viver de acordo com a Boa Nova desta libertação,
isto é, em estado de êxodo de todas as servidões.
Além da certeza de que
éramos escravos do faraó no Egito e de que Javé
nos tirou do Egito com mão forte, segundo Dt 6,21, é
muito importante a visão da construção de um
novo modo de ser e viver. Sem o forte desejo de uma mudança
radical em nossas vidas, a luta contra a escravidão, opressão
e servidão perdem sentido. A primeira etapa foi vencida.
Agora é preciso continuar a caminhada, projetar-se para frente.
É indispensável a edificação de uma
nova forma de relação social, onde o desrespeito à
vida dê lugar à fraternidade, ao despojamento, à
união, à comunhão. Aí sim, a ressurreição
começa a ter sentido para todos aqueles que nela acreditam.
O ardor, o sacrifício, a penitência só tem razão
de ser quando envolvida por um sentimento de vida, de ressurreição.
Chegando nesse estágio o ser humano humilhado e rebaixado
se ergue e pode dizer com toda sua inteligência, alma e coração:
A celebração da vitória é uma celebração
ao mesmo tempo da vitória de Deus e da vitória do
homem. Daí nasce a confirmação de que o projeto
de Deus se legitima, também, através da ação
e participação do esforço humano.
Para que o homem não
esqueça que o Deus libertador o acompanhou durante todo o
percurso em direção à libertação
é feito um pacto, uma aliança entre Deus e os homens:
os dez mandamentos. Para além da lei mosaica surge a celebração
da Páscoa que, na história, remete sempre ao acontecimento
que fundou a vida nova de um povo. Ao mesmo tempo que se celebra
essa festa, se traz na memória o fato do passado, tornando-o
fermento para gerar acontecimentos semelhantes no presente: a vida
nova.
Nos momentos atuais
Na atualidade vemos muitos sinais
de morte em nossa sociedade. Todos os dias, nos jornais, rádios,
televisão, nas ruas, nas conversas, vemos situações
gritantes da humanidade que tomam conta de cada um de nós,
causando incertezas, medos e desesperanças.
Às vezes temos a impressão de que a morte é
vencedora. Tudo parece sem saída. Podemos imaginar, por exemplo,
quantos momentos de angústias deve ter passado o povo hebreu
na sua trajetória do Egito à terra prometida. Mas
esse é o segredo escondido da páscoa, o confronto
entre a morte e a vida, onde o grito de dignidade humana e paz nasce
do "túmulo vazio".
Com Jesus Cristo a morte é
vencida pela ressurreição. Sua humanidade vence a
morte e conduz toda a raça humana; a vitória da vida
sobre a desesperança garante a derrota dos sinais de morte
presentes na história. Portanto "a dor e a cruz não
devem ser eternizadas na ação de Jesus, e sim suprimidas
por sua vitória sobre a morte". Pois Deus se une ao
ser humano para vencer as cruzes cotidianas da história.
Ele é aquele que se põe ao lado do sofredor, para
vencer com ele as cruzes que são construídas pelos
opressores e colocadas sobre os ombros dos fracos.
Para refletir:
- Em que a minha história se parece com a do povo do Êxodo?
- O que tenho feito para libertar os oprimidos?
- Como a nossa comunidade está se preparando para o tempo
pascal?
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