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"Respondendo ao clamor do povo, Deus se alia à causa
dele e mostra o objetivo da libertação: o objetivo
último e utópico é uma condição
de posse total da vida (terra onde corre leite e mel); ao mesmo
tempo, é um objetivo próximo e concreto: a posse da
terra de Canaã. A libertação, portanto, é
um movimento para se atingir o ideal, e este se concretiza num momento
histórico bem determinado. E a ação de Deus
se realiza sempre através da mediação humana."
(Bíblia Edição
Pastoral)
Deserto: lugar histórico
onde Deus se revela
Na Bíblia Sagrada o "deserto"
é palco de muitas narrativas, caracterizando-o como lugar
de solidão, abandono, sem vegetação, onde mora
pouca gente, habitado por animais selvagens. Os seus perigos, como
a fome, a sede, serpentes, também fazem parte deste cenário,
especialmente no relato da peregrinação dos israelitas
pelo deserto.
Em Êxodo 3,7-10, resultado
de uma aproximação entre Javé e Moisés,
nos é apresentada a bondade e o projeto de Deus para a libertação
de seu povo: "Eu vi muito bem a miséria do meu povo
que está no Egito. Ouvi o seu clamor contra seus opressores,
e conheço os seus sofrimentos. Por isso, desci para libertá-lo
do poder dos egípcios e para fazê-lo subir dessa terra
para uma terra fértil e espaçosa, terra onde corre
leite e mel, o território dos cananeus, heteus, amorreus,
ferezeus, heveus e jebuseus. O clamor dos filhos de Israel chegou
até mim, e eu estou vendo a opressão com que os egípcios
os atormentam. Por isso vá. Eu envio você ao Faraó,
para tirar do Egito o meu povo, os filhos de Israel".
Deserto: caminho
para a realização da promessa
Deus se revela às pessoas
mostrando-se conhecedor de sua situação, estando presente
em sua vida. Esta presença inspira a construção
de uma nova história, pois Deus assume a causa do oprimido
e excluído, opondo-se à dominação e
à desigualdade.
A finalidade da libertação
é conquistar a "terra onde corre leite e mel",
ou seja, ir para um lugar onde exista alimento, água e dignidade
para todo o povo. Contudo, ao sair da terra da opressão -
Egito - o povo entrou no deserto e o atravessou, mostrando a necessidade
de se enfrentar a aridez, as dificuldades e a tentação
de voltar atrás.
O caminho no deserto só é
caminho de conversão quando, libertos das garras da escravidão,
o povo sente necessidade de viver a liberdade na nova sociedade,
sem construir um novo sistema de opressão.
Tentações
do deserto
Deus liberta seu povo da escravidão
e o quer plenamente livre. Porém, o deserto é o espaço
de conflito entre o ideal de vida e as incoerências vividas,
ao mesmo tempo em que é momento de tomada de consciência
daquilo que se deixa para trás no propósito de assumir
um novo modo de vida:
· O povo no deserto, ao experimentar a fome e a seca, sente
a tentação de voltar atrás, chora a saudade
das cebolas e batatas do Egito;
· Mesmo estando no deserto, longe das sociedades divididas
em classes, longe do Egito e das cidades-estado, o povo vive conflitos
entre si;
· Sob a liderança de Moisés, o povo descobre
que a libertação se conquista na organização
do dia-a-dia. Ainda assim são fracos de empenho e participação;
· Confrontando-se com suas provações, dúvidas
e tentações de seguir outros deuses, o povo buscava
uma mudança de mentalidade e uma adesão a um único
Deus que o levou a pensar mais nos outros.
Quaresma: o deserto
do cristão
A quaresma é um tempo
que a Igreja reserva para que reflitamos sobre nós e também
sobre o mundo em que vivemos. É um momento especial onde
todos somos convidados à penitência e à conversão.
Podemos comparar a nossa quaresma
com o deserto que o povo de Israel atravessou para chegar até
a terra prometida. Foi um tempo de sofrimento, de angústia,
mas a esperança de libertação, de ir em busca
de algo novo fez com que eles não desanimassem. Tentações
não faltaram, mas o sonho maior, chegar na terra que corre
leite e mel, não se apagou das suas mentes. O povo saiu de
uma situação de opressão para buscar uma nova
forma de vida, longe da dominação do egípcios.
Se olharmos um pouco mais atentamente
para a nossa sociedade de hoje, veremos que muita gente vive uma
situação parecida com a do povo israelita. A Campanha
da Fraternidade deste ano, que tem como tema "Dignidade Humana
e Paz" e o lema "Novo Milênio sem Exclusões"
está preocupada com uma série de situações
onde a dignidade humana não é respeitada. Há
mendigos e índios sendo queimados vivos, crianças
e adolescentes vítimas da prostituição, trabalhadores
vivendo em regime de escravidão em fazendas e minas de carvão,
crianças morrendo de fome e muitas outras situações
que podemos presenciar no nosso dia-a-dia.
A quaresma é um excelente
momento para pararmos e refletirmos sobre tudo isso. É mais
do que nunca tempo de botarmos o pé na estrada e caminharmos
em busca de algo novo. Javé, o Deus libertador, não
quer que seu povo fique explorado. Ele anda junto com seu povo e
aponta caminhos para a libertação.
No entanto, não poderemos
ter medo de enfrentar o deserto. Ele é o caminho para se
chegar à nova terra. O nosso mundo não pode mais ficar
como está. Tem que haver uma mudança. Porém,
não podemos ficar esperando que um novo Moisés apareça
para nos carregar pela mão. Temos que converter o nosso coração
e irmos adiante.
Para refletir
· O que é "libertação" para
os trabalhadores das cidades, os agricultores, os desempregados,
índios...?
· Como percebemos a presença de Deus em nosso 'deserto',
luta e caminhada? É uma presença libertadora? De que
maneira?
· Que ação concreta podemos fazer para amenizar
o sofrimento das pessoas que têm sua dignidade violada. |
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