DESEJO DE PAZ E JUSTIÇA
"Cícero Charles / Carlos Valteórgens"

      Hoje nós esperamos, como festa e realidade concreta, o nascimento do Divino Salvador em nossas vidas. Esse desejo de vida e nascimento já esteve presente em muitos momentos da história do povo de Deus. Destacamos, nesse momento, como incentivo de resistência e esperança, a reação do profeta Sofonias frente à dominação econômica, social, política e ideológica dos Assírios ao povo de Judá.
      Politicamente, quando Sofonias começou a profetizar, Judá estava sob o domínio do Império Assírio. Sua dependência teve início no reinado do rei Acaz quando este pediu ajuda ao imperador Teglat-Falasar III para vencer os reinos de Damasco e Israel. Depois desse pedido de socorro, o Rei de Judá passou a ser vassalo do rei da Assíria e Jerusalém perdeu sua independência. Com este acordo político Judá se uniu a  Assíria e passou a aceitar sua intervenção nos assuntos internos do país.
      Lentamente o povo foi aprovando o modelo de vida dos assírios. Suas práticas pagãs começaram a ser adotadas pelo povo, principalmente pelos adeptos da corte. Surgiram a prática da prostituição sagrada, os cultos astrais, a magia e a adivinhação. A indagação é simples, mas ao mesmo tempo, fundamental: Como foi surgindo todo esse movimento de inculturação, imposta, ao povo judeu do sul? O acordo político de aliança com a Assíria pode ser responsabilizado por essas conseqüências sociais.
      O que o profeta Sofonias nos quer transmitir não é uma mensagem que levanta grandes problemas teológicos, mas tenta resolver os problemas de cada dia.
      "Sofonias denunciou, como os grandes profetas do século VIII, as diversas transgressões contra Deus e contra o próximo. Atacou a idolatria cultural, as injustiças, o materialismo, a indiferença religiosa, os abusos das autoridades, as ofensas cometidas pelos estrangeiros contra o povo de Deus. Afirmou claramente que esta situação era insustentável, que ela provocaria forçosamente o castigo. Sofonias, contudo, não se compraz em condenar. Não obstante as suas terríveis denúncias, a leitura de Sofonias não nos surpreende. Antes, transforma-se em estímulo para a ação, em agente de mudança". (A. Schökel)
      Uma coisa é bem clara na intenção de Sofonias: é preciso abrir espaço para que o povo pobre possa sobreviver dentro de sua limitação. Ele já nasce num contexto mínimo de possibilidades. Por isso, é preciso gerar oportunidades e não massacrá-lo, como faziam aqueles que "enchiam a casa do seu patrão" com o resultado da violência e da deslealdade.
      O grande pano de fundo para sustentar toda uma ideologia conformista está em incutir nas mentes do povo, simples e humilde, que Deus não se preocupa com o mal, nem com o bem. Com isso os ricos serão sempre ricos e detentores do poder e "da vida", e os pobres, mais pobres e desesperançados, esperando a morte. Com essa ideologia esvaziava-se a tentativa do povo de se aproximar de Deus e, ao mesmo tempo, imprimia uma consciência de aceitação das práticas injustas e desumanas.
      A política implantada por príncipes e ministros e por todos os que vestiam "à moda estrangeira" - imposição de costumes ao povo dominado - partia da concepção de que o rei é deus e Senhor. O rei e os seus súditos mais próximos precisavam do melhor para defender e guardar o povo, por isso a parte boa da produção era para o seu sustento.
      Para produzir mais e mais era preciso muito trabalho e consequentemente surgia a escravidão. Esta era produto da violência e da falsidade.
      Dizer que Deus está ausente da vida do povo é negar a própria vida dada por esse Deus. Essa forte concepção de um Deus que não cuidava e nem observava seu povo, legitimava o massacre e a escravidão dos mais pobres.
      A idéia de um Deus passivo estava se enraizando no dia-a-dia do povo, porém Javé desmascara, por meio do profeta Sofonias, essa imagem negativa de um Deus inoperante. Esse Deus, ao contrário, está bastante vivo e atento para o que ocorre com seu povo. Ele eliminará todos os que feriram o seu povo.
      Este era o dia-a-dia do povo judaíta: viver para manter um sistema político e religioso injusto, desigual e desumano.
      Hoje, nós percebemos uma verdadeira blasfêmia: Deus não está preocupado com o que acontece de bom ou de ruim no mundo. Estamos falando aqui de todos que não acreditam na presença de Deus em nossas vidas. Esses desconfiados são pessoas auto suficientes e orgulhosas, que duvidam que Deus está vivo no meio de nós. São capazes de falar abertamente da ausência de Deus somente aqueles que querem impedir o desenvolvimento dos que não têm possibilidade, nem oportunidade, de progresso na vida. Quem age assim, quer manipular os que não encontram a quem pedir socorro, humanamente falando. E com isso, os exploradores se aproveitam de seus esforços humanos para gerar mais produção e mais trabalho.
      Os que negam a Deus não reconhecem as reivindicações dos necessitados, ao contrário, passam a abusar do mínimo que ainda lhes restam: seu corpo, sua mente, sua vida. Estamos falando dos que detêm o poder do conhecimento intelectual e religioso, que ao invés de usá-lo em favor do povo, usam-no para levá-lo à degradação da vida, ao medo, à culpa, à morte.
       Seremos mais claros. Os desonestos políticos, os maus religiosos, os incompetentes que dirigem a sociedade, que se apoiam em suas loucuras egocêntricas, são responsáveis pela difícil situação em que se encontra o povo pobre e oprimido. Para legitimar suas ações e ficarem em paz com suas consciências dizem que Deus não escuta o clamor dos oprimidos.
      O desumano desvia o verdadeiro sentido da ação de Deus para encobrir a verdadeira intenção de suas ações. "Diz o insensato no seu coração: 'Deus não existe!'".
      Insanos e dementes que são, e tragados por suas vaidades, esquecem o mais claro e evidente: Deus é o Deus da vida e não da negação de tudo o quanto fizera por Israel: libertação, dom da lei e aliança.
       Agora podemos concluir com o apoio do profeta Sofonias. Desejamos com grande ardor e entusiasmo que a vinda de Cristo nosso Salvador, neste Advento em preparação ao Natal, traga novamente a esperança de uma maior resistência frente ao flagrante desrespeito pela vida humana. Que o Cristo, que é a própria justiça e a verdadeira paz, nos ensine a quebrarmos a forte barreira do egoísmo e orgulho para reconstruirmos a verdadeira casa que já está projetada por Deus, há muito tempo, no mais profundo de nosso ser.
      Por isso, praticai ações em favor da vida. Onde está o nosso coração está também as nossas atitudes. Divulgai o nome do Senhor! Proclamai-o! Daí nascerão novas mentes e novos corações. Enchendo os lugares de graça e glória, talvez, os modos e costumes serão outros. Surgirá então um novo rosto de sociedade. Aquela que expressa o verdadeiro sentido da vida: o resgate do outro, através da solidariedade.

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