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Hoje nós esperamos, como festa e realidade concreta,
o nascimento do Divino Salvador em nossas vidas. Esse desejo de
vida e nascimento já esteve presente em muitos momentos da
história do povo de Deus. Destacamos, nesse momento, como
incentivo de resistência e esperança, a reação
do profeta Sofonias frente à dominação econômica,
social, política e ideológica dos Assírios
ao povo de Judá.
Politicamente, quando Sofonias começou
a profetizar, Judá estava sob o domínio do Império
Assírio. Sua dependência teve início no reinado
do rei Acaz quando este pediu ajuda ao imperador Teglat-Falasar
III para vencer os reinos de Damasco e Israel. Depois desse pedido
de socorro, o Rei de Judá passou a ser vassalo do rei da
Assíria e Jerusalém perdeu sua independência.
Com este acordo político Judá se uniu a Assíria
e passou a aceitar sua intervenção nos assuntos internos
do país.
Lentamente o povo foi aprovando o
modelo de vida dos assírios. Suas práticas pagãs
começaram a ser adotadas pelo povo, principalmente pelos
adeptos da corte. Surgiram a prática da prostituição
sagrada, os cultos astrais, a magia e a adivinhação.
A indagação é simples, mas ao mesmo tempo,
fundamental: Como foi surgindo todo esse movimento de inculturação,
imposta, ao povo judeu do sul? O acordo político de aliança
com a Assíria pode ser responsabilizado por essas conseqüências
sociais.
O que o profeta Sofonias nos quer
transmitir não é uma mensagem que levanta grandes
problemas teológicos, mas tenta resolver os problemas de
cada dia.
"Sofonias denunciou, como os
grandes profetas do século VIII, as diversas transgressões
contra Deus e contra o próximo. Atacou a idolatria cultural,
as injustiças, o materialismo, a indiferença religiosa,
os abusos das autoridades, as ofensas cometidas pelos estrangeiros
contra o povo de Deus. Afirmou claramente que esta situação
era insustentável, que ela provocaria forçosamente
o castigo. Sofonias, contudo, não se compraz em condenar.
Não obstante as suas terríveis denúncias, a
leitura de Sofonias não nos surpreende. Antes, transforma-se
em estímulo para a ação, em agente de mudança".
(A. Schökel)
Uma coisa é bem clara na intenção
de Sofonias: é preciso abrir espaço para que o povo
pobre possa sobreviver dentro de sua limitação. Ele
já nasce num contexto mínimo de possibilidades. Por
isso, é preciso gerar oportunidades e não massacrá-lo,
como faziam aqueles que "enchiam a casa do seu patrão"
com o resultado da violência e da deslealdade.
O grande pano de fundo para sustentar
toda uma ideologia conformista está em incutir nas mentes
do povo, simples e humilde, que Deus não se preocupa com
o mal, nem com o bem. Com isso os ricos serão sempre ricos
e detentores do poder e "da vida", e os pobres, mais pobres
e desesperançados, esperando a morte. Com essa ideologia
esvaziava-se a tentativa do povo de se aproximar de Deus e, ao mesmo
tempo, imprimia uma consciência de aceitação
das práticas injustas e desumanas.
A política implantada por
príncipes e ministros e por todos os que vestiam "à
moda estrangeira" - imposição de costumes ao
povo dominado - partia da concepção de que o rei é
deus e Senhor. O rei e os seus súditos mais próximos
precisavam do melhor para defender e guardar o povo, por isso a
parte boa da produção era para o seu sustento.
Para produzir mais e mais era preciso
muito trabalho e consequentemente surgia a escravidão. Esta
era produto da violência e da falsidade.
Dizer que Deus está ausente
da vida do povo é negar a própria vida dada por esse
Deus. Essa forte concepção de um Deus que não
cuidava e nem observava seu povo, legitimava o massacre e a escravidão
dos mais pobres.
A idéia de um Deus passivo
estava se enraizando no dia-a-dia do povo, porém Javé
desmascara, por meio do profeta Sofonias, essa imagem negativa de
um Deus inoperante. Esse Deus, ao contrário, está
bastante vivo e atento para o que ocorre com seu povo. Ele eliminará
todos os que feriram o seu povo.
Este era o dia-a-dia do povo judaíta:
viver para manter um sistema político e religioso injusto,
desigual e desumano.
Hoje, nós percebemos uma verdadeira
blasfêmia: Deus não está preocupado com o que
acontece de bom ou de ruim no mundo. Estamos falando aqui de todos
que não acreditam na presença de Deus em nossas vidas.
Esses desconfiados são pessoas auto suficientes e orgulhosas,
que duvidam que Deus está vivo no meio de nós. São
capazes de falar abertamente da ausência de Deus somente aqueles
que querem impedir o desenvolvimento dos que não têm
possibilidade, nem oportunidade, de progresso na vida. Quem age
assim, quer manipular os que não encontram a quem pedir socorro,
humanamente falando. E com isso, os exploradores se aproveitam de
seus esforços humanos para gerar mais produção
e mais trabalho.
Os que negam a Deus não reconhecem
as reivindicações dos necessitados, ao contrário,
passam a abusar do mínimo que ainda lhes restam: seu corpo,
sua mente, sua vida. Estamos falando dos que detêm o poder
do conhecimento intelectual e religioso, que ao invés de
usá-lo em favor do povo, usam-no para levá-lo à
degradação da vida, ao medo, à culpa, à
morte.
Seremos mais claros. Os desonestos
políticos, os maus religiosos, os incompetentes que dirigem
a sociedade, que se apoiam em suas loucuras egocêntricas,
são responsáveis pela difícil situação
em que se encontra o povo pobre e oprimido. Para legitimar suas
ações e ficarem em paz com suas consciências
dizem que Deus não escuta o clamor dos oprimidos.
O desumano desvia o verdadeiro sentido
da ação de Deus para encobrir a verdadeira intenção
de suas ações. "Diz o insensato no seu coração:
'Deus não existe!'".
Insanos e dementes que são,
e tragados por suas vaidades, esquecem o mais claro e evidente:
Deus é o Deus da vida e não da negação
de tudo o quanto fizera por Israel: libertação, dom
da lei e aliança.
Agora podemos concluir com
o apoio do profeta Sofonias. Desejamos com grande ardor e entusiasmo
que a vinda de Cristo nosso Salvador, neste Advento em preparação
ao Natal, traga novamente a esperança de uma maior resistência
frente ao flagrante desrespeito pela vida humana. Que o Cristo,
que é a própria justiça e a verdadeira paz,
nos ensine a quebrarmos a forte barreira do egoísmo e orgulho
para reconstruirmos a verdadeira casa que já está
projetada por Deus, há muito tempo, no mais profundo de nosso
ser.
Por isso, praticai ações
em favor da vida. Onde está o nosso coração
está também as nossas atitudes. Divulgai o nome do
Senhor! Proclamai-o! Daí nascerão novas mentes e novos
corações. Enchendo os lugares de graça e glória,
talvez, os modos e costumes serão outros. Surgirá
então um novo rosto de sociedade. Aquela que expressa o verdadeiro
sentido da vida: o resgate do outro, através da solidariedade. |
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