CORPUS CHRISTI : "TOMAI E COMEI..."
"Flávio Lima da Silva / Ivanir Signorini"

Nós, cristãos católicos, neste mês de junho, temos várias festas litúrgicas importantes, destacamos: Ascensão do Senhor (04) Pentecostes (11), Santíssima Trindade (18) e Corpus Christi (22). Nesta reflexão queremos aprofundar o sentido da festa do Corpo e Sangue de Cristo.
A princípio pode parecer estranho a presença de um tema litúrgico nesta página bíblica. Porém, o aprofundamento das questões teológicas do Novo Testamento apontam para uma identificação substancial entre a teologia litúrgica desta festa com a da tradição bíblica. Apoiando-nos nos pressupostos da teologia litúrgica de Corpus Christi, tentaremos uma aproximação bíblica a esta solenidade, isto é, abordaremos seu significado e suas implicações para os cristãos a partir do enfoque da tradição teológica bíblica.
... isto é meu corpo e sangue dado e derramado por vós...
Dois foram o motivos que nos impeliram ao desenvolvimento desta reflexão:
1) O primeiro é eminentemente litúrgico e prático: A Igreja Católica celebra neste mês a Festa de Corpus Christi.
2) O segundo é fruto de uma experiência missionária que desenvolvemos na Diocese de Brejo, no Maranhão. Em um curso bíblico, cujo tema era "O Projeto de Jesus: o Reinado", fomos surpreendidos por uma intervenção afirmativa por parte de uma senhora: "Sempre nos ensinaram como salvar a alma, por que ela é mais importante que o corpo corruptível. Então devemos rezar pela alma de quem morreu e não pelo defunto. Da mesma forma que o coitado de Jesus não precisava ter morrido com o corpo, afinal o que vale é a alma." Não sabemos qual foi o grau de consciência que esta senhora teve ao proferir estas palavras. O fato é que conseguiu provocar-nos um profundo mal estar, pois aparentemente esvaziou todo o sentido da festa de Corpus Christi e põe em "cheque-mate" toda a questão central do cristianismo, a saber, o evento da morte e ressurreição de Cristo. Assim, hoje, nos propomos a arriscar algumas respostas a partir da tradição teológica neo testamentária.
Para início de conversa, esta afirmação toca diretamente num dilema irreconciliável que o cristianismo se debate: crer na imortalidade da alma ou na ressurreição dos corpos?
Culturalmente o cristianismo bebe de duas matrizes de pensamento: o grego e o judaico. A crença da imortalidade da alma se fundamenta no pensamento filosófico de Platão cristianizado por Santo Agostinho. Esta tradição tinha como verdadeiro e raiz última da realidade, o mundo das idéias (em termos cristãos, o mundo espiritual) em detrimento do mundo sensível, o mundo do nosso corpo carnal. Em outras palavras podemos dizer: é a desvalorização deste mundo em função do mundo espiritual, que é mais perfeito, ideal, enfim, o Reino dos Céus (na concepção cristã). Neste sentido a afirmação da senhora tem toda a razão de ser.
Porém queremos resgatar a vertente do pensamento judaico que nos apresenta a idéia da Ressurreição dos corpos. Esta idéia pode ser percebida em dois momentos do Credo que professamos: "... desceu a mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia..." e "... creio na ressurreição da carne..." Nossa doutrina católica tem no Credo, síntese de toda a fé católica, a crença na ressurreição. Esta crença provém de Jesus (Mt 22,30; 28,6; Mc 24,6-8;).
A missão jesuânica tem sua revitalização na experiência da ressurreição de Jesus após a sua morte na Cruz. Jesus pregou a ressurreição dos corpos, a ressurreição de um corpo glorioso ( Mt 22, 23-33.). Jesus fala de seu projeto e missão, o Reinado de Deus, com seu corpo, ou seja, com sua vida e experiência. A pregação de Jesus não teria sentido se não fosse a partir de sua morte e ressurreição. Isto é tão forte que a Cruz, o Pão e o Vinho, principais símbolos da fé cristã, nos remetem ao seu corpo enquanto explicitador de Deus e do Reinado. Assim, temos: Cruz = lugar do corpo de Jesus; Pão = seu corpo; e Vinho = seu sangue. E a junção destes três símbolos suscitam o grande paradoxo cristão: a morte (Cruz) de Jesus possibilitou sua permanência real e viva entre nós (Pão e Vinho) (Jo 6,51).
Os escritos do Novo Testamento colocam Jesus como O intervir de Deus na História. Podemos constatar isto claramente no prólogo de João: "No princípio era o Verbo; e o Verbo estava em Deus; e o Verbo é Deus; e o Verbo se fez carne habitando entre nós." (Jo 1,1-14). Em outras palavras: o nascimento, a vida, pregação, morte e ressurreição de Jesus estão em função de sua missão: tornar seu corpo o ponto de encontro de Deus com a humanidade. Este ponto de encontro só foi possível com o deslocamento do templo: do templo de pedra para o seu corpo. Assim, o discipulado de Jesus, e toda a humanidade, tem no corpo do mestre o encontro e a experiência de Deus.
Podemos, portanto, perceber que na tradição teológica cristã bíblica a solenidade litúrgica de Corpus Christi pode ser entendida como a presença de Deus nos alimentos do Pão e do Vinho (Eucaristia) bem como a participação de Deus na história humana.
... Fazei isto em memória de mim!
O sentido teológico mais atual desta celebração, com a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, é a unidade do povo ao redor do seu Senhor presente na Eucaristia, sua força na caminhada do povo em marcha e o compromisso com os irmãos mais sofridos de nossa sociedade.. Chegamos ao final do trajeto que nos propusemos seguir. Nossa intuição tinha razão de ser: a tradição bíblica e litúrgica não se opõem mas, por caminhos diferentes - e porque não complementares! -, alcançam o mesmo querigma, núcleo da fé cristã: o corpo de Jesus é o ponto de encontro de Deus com a humanidade.
Arriscamo-nos em uma resposta ao nosso mal-estar a partir da afirmação daquela senhora, que não sabemos se chegará aos seus ouvidos. Porém, entrevemos em sua afirmação um alerta para nós cristãos, e, ao mesmo tempo, uma crítica profunda à nossa realidade atual.
Nossa tradição teológica cristã e as práticas populares do cristianismo, em algum momento da caminhada histórica, relevou a segundo plano a corporeidade, passando a desenvolver uma teologia de repugnância ao corpo. O castigo e desprezo do corpo tornaram-se o caminho para chegar a Deus. Porém, este caminho nos levou a um distanciamento cada vez maior dele.
Por outro lado, a secularização se apropriou do corpo de tal forma que nos dá a impressão de que o corpo é filho da sociedade moderna: há um nexo indissociável entre ambos. O corpo passou a ser objeto comercial, gerando assim, a escravidão da grande maioria das pessoas na corrida por um corpo perfeito. Corpo este gerador de milhões para o mercado neoliberal e que camufla uma realidade de expropriação do corpo e dessacralização do ser humano.
A solenidade de Corpus Christi é um grito de alerta e um apelo aos seguidores de Jesus em resgatar o corpo como o lugar privilegiado do encontro com Deus e com os irmãos. É na valorização de nossos corpos, enquanto sacramento, que Jesus Ressuscitado continua vivo com seu corpo glorioso. Façamos isto em Sua memória! (Jo 6, 56).

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