ANO JUBILAR
" Anônio Gomes de Pontes Neto"

    Inspirados pela bula do papa João Paulo II "Incanationis Mysterium" celebramos o Grande Jubileu do ano 2000. Queremos abraçar toda a simbologia que retrata este momento fecundo da intimidade entre fé e vida: a porta santa, a peregrinação e as indulgências próprias desse tempo rico de graças.
1. Tempo: um mistério fascinante
     Todos nós estamos acostumados a entender que o tempo é uma realidade marcada por dias, horas, minutos, etc. No entanto, o tempo está muito distante de ser aprisionado ou entendido. Na medida em que nossos sentimentos são vividos de acordo com cada ocasião, podemos ter a impressão de eternidade (como uma grande dor) ou de entusiasmo relâmpago (como um beijo de carinho). Desta forma, numa mesma fração de segundos, muitas pessoas podem viver experiências diferentes quanto à duração do tempo.
     Faz parte da pessoa humana destinar tempos especiais para celebrar. O ser humano é chamado para viver cada momento plenamente, e não apenas a passar pela vida.
-Tempos especiais na Bíblia: Na medida em que o povo de Deus fazia sua experiência de libertação e buscava sua identidade, lutando por questões vitais do seu cotidiano, destacavam-se três níveis para o tempo. Ei-los na Bíblia:
  Nível 1 - O Sábado
     Conhecido inicialmente como o Dia do Senhor, o sábado começou a ser tido como o dia do descanso e da memória da libertação do povo da escravidão do Egito (Dt 5, 14-15). Retirar um dia para o descanso, sem a preocupação com o lucro, significa dizer, ainda hoje, que valemos não somente pelo que produzimos mas pelo cultivo da liberdade e da gratuidade. Este sentido do sábado foi transferido para o domingo ,  como celebramos atualmente. É o tempo dos direitos de todos à liberdade, ao descanso.
   Nível 2 - O ano sabático
     O ano sabático possui a seguinte mensagem: Tudo o que somos e tudo o que fazemos deve ser uma atitude de serviço ao Deus que nos liberta. Ele consistia numa espécie de sábado ampliado. Assim como havia de sete em sete dias um sábado, de sete em sete anos se tirava um ano para o descanso da terra, como forma de preservar o campo e contrariar a lógica do lucro feroz. (Lv 25, 1-7).
     Depois de sete anos de trabalho, ocorria a libertação de quem era escravo (Dt 15, 12-15), o qual deveria ser assistido para não cair na miséria.
     Nível 3- O ano do jubileu
     Conforme a Bíblia, o ano do Jubileu ocorre no 50º ano, após a contagem de sete semanas de anos (7x7= 49).
     O Jubileu reúne em si a simbologia tanto do sábado como do ano sabático devido à proposta trazida consigo de uma atitude de zerar todas as dívidas e abismos entre pobres e ricos que se separam por valores ilícitos e desiguais.
      A medida passa a ser a fraternidade e a partilha. Todos devem viver dignamente e com condições iguais, recomeçando sempre que a injustiça retornar. Assim, a santificação que se pede é a restauração da justiça, a redistribuição solidária de bens e o resgate dos escravizados.
NB: O primeiro Jubileu cristão de que se tem registro é datado de 1300. Atualmente, o Jubileu é celebrado de 25 em 25 anos.
      Anos Santos são convocações para gerar uma revisão de vida e acolher a misericórdia de Deus, expressa também através das indulgências.
      Como meios para melhor vivermos a fidelidade ao projeto de Jesus, a Igreja indica:
                a) Desejo de avanço no diálogo com as outras religiões, como forma de tornar concreto o caminho já percorrido por diversas Igrejas e comunidades eclesiais (ecumenismo);
                 b) Compromisso missionário com a nova evangelização, à luz do Concílio Vaticano II;
                 c) A peregrinação como sinal simbólico do gesto de caminhada, da pessoa e da Igreja;           
                d)Acolhida da misericórdia do Pai, como sinal de confiança no amor que destrói o pecado;
                e) O perdão a ser vivido com o irmão, com Deus e consigo;
                f) Necessidade de conversão e ato penitencial;
                g) Compromisso com a causa dos pobres capaz de se traduzir na criação de uma nova cultura da solidariedade, gerador de um modelo de economia a serviço de toda a pessoa e de eliminação da pobreza, fonte de violências.
      Sentir-se participante de um processo de conversão e mudança de atitude é a grande motivação para a plenitude da celebração do Jubileu.
  2. O sentido da porta
      O papa inaugurou o Grande Jubileu no Natal de 1999, com a abertura da porta santa da Basílica de São Pedro, no Vaticano.
      Que sentimento tem uma pessoa que diz: "para mim todas as portas se fecharam?" Portas delimitam espaços, abrem ou fecham caminhos, possibilitam ou não novas oportunidades.
      O Grande Jubileu começa com o sinal da porta aberta, chamada de porta santa, devido ao fato de representar a abertura da graça que nos quer acolher. Deus constantemente está abrindo portas, oportunidades para nos encontrarmos com Ele. Da mesma forma, somos convidados a abrir nossas portas para sua graça, para a construção do seu Reino, para os irmãos, para os necessitados e para o diálogo.
  3. Peregrinação: o caminho da própria vida
       O significado principal da peregrinação é sempre um desinstalar-se, sair de si em busca de algo mais profundo, de novos caminhos, de novos meios e soluções, seja na vida particular como no trabalho pastoral.
No ano Jubilar, os lugares orientados para peregrinação são: Roma, Terra Santa, catedrais de cada diocese, outras igrejas e santuários indicados pelo bispo de cada diocese e casa de desamparados.A bula indica como gestos de penitência que possibilitam as indulgências: - Abster-se de consumos supérfluos para dedicar o dinheiro poupado aos pobres; - apoiar obras assistenciais; - Dedicar parte do tempo livre a atividades que beneficiam a comunidade.
  4. Igreja, lugar de partilha e misericórdia
      O significado verdadeiro de indulgência é: capacidade de perdoar.
      Indulgência tem a ver com pecado, seja pessoal, seja social. Indulgente é quem teria o direito de exigir a reparação mas, ao invés disso, preferiu apagar o erro num ato de confiança e generosidade em relação àquele que errou.
      Quando a Igreja concede indulgência, ela não está realizando nenhuma mágica e nem tão pouco querendo ser detentora do que Deus tem que fazer ou não. Pelo contrário, chamados que somos a conhecer o amor do Pai, este amor nos abre espaço para que o estendamos a todos os que o buscam com sinceridade de coração.
      Cada pecado reduz a beleza da humanidade, mas o perdão e o amor do Pai ergue seus filhos, os recompõe. A força de quem faz o bem é maior do que a sedução do pecado.
  5. Um novo milênio de paz e sem exclusão
      Em comunhão com a celebração do Jubileu da encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo, a meta é avaliarmos 2000 anos de cristianismo, 500 anos de evangelização, visando uma atitude de coerência com os sinais dos tempos.
      Nossa missão é conduzir a vida cotidiana na direção do tempo messiânico (Is 65, 21-25). Em Lc 4,18-19, Jesus anuncia sua missão que devemos colocar em prática. A melhor pregação que podemos oferecer ao mundo descrente é o testemunho de cristãos unidos a serviço da paz e de uma vida mais digna para todos. Quem proclama que Deus é pai de todos tem de estar ao lado dos irmãos e não pode admitir que filhos de Deus sejam excluídos dos direitos.
  6. O Jubileu que vem vindo agora
      A celebração deste Jubileu milenar quer denunciar a injustiça social praticada por muitos países que se consideram cristãos.
      Faz-se urgente a construção de uma nova história, que humanize a vida e levante os caídos que se encontram à margem da sociedade.Celebrar o Jubileu é agradecer a Deus pelo tempo de graça que Ele nos dá .Não faremos a história sozinhos, pois o Senhor estará sempre conosco. O ano 2000 é ano santo, ano do Jubileu. O grande Jubileu é o próprio Cristo.

   
© - 2006 - Salvatorianos - Todos os direitos reservados