O Desafio

Em Busca do Profético
Grito de Amós

Antônio G. de Pontes Neto, SDS
Liomar Contini, SDS
e Adelino F. Oliveira, SDS

Refletir, hoje, sobre a questão da justiça é uma tarefa que se impõe. Porém, como cristãos, precisamos sempre mais buscar critérios éticos que nos auxiliem em nossa reflexão. Assim, propomos, nesse texto, uma abordagem da problemática da justiça sob a luz do vigoroso profetismo de Amós. Considerado como o profeta da crise, Amós denuncia a vida social injusta, o culto corrupto, a segurança arrogante e cega, a violência em todos os níveis, a hipocrisia, a conhecida mania de se querer levar vantagem sobre o suor do trabalho do outro, a mistura de fé com idolatria e a política errada. Ele nos convida a uma atitude de revisão de nossas certezas e tranqüilidades.

Javé nos fala, na profecia de Amós, que se a justiça não for implantada hoje – resgatando a vida dos pobres – toda fartura e abundância produzidas são inúteis.

O Aparato Judicial Versus Justiça

A problemática que produz uma inquietação na atuação do profeta Amós está associada ao não cumprimento da justiça. Sem dúvida, a justiça é um dos conceitos mais importantes à humanidade. Para que a justiça aconteça na vida prática, faz-se necessário um mecanismo (composto por tribunais, juízes, autoridades judiciárias...) que possua a obrigação de resguardar o direito à vida para todas as pessoas e, ao mesmo tempo, de corrigir e punir as injustiças cometidas, tanto pelo sistema quanto pelos indivíduos.

A Justiça é simbolicamente representada pela escultura de uma deusa grega, cuja imagem se apresenta com os olhos vendados, com uma espada em punho e segurando uma balança. Esta imagem, de maneira inversa, acaba ilustrando bem a prática da justiça na atualidade, ou seja, ao contrário de ser uma justiça imparcial, ela é cega e desequilibrada, pois julga, muitas vezes, desprezando critérios éticos (que conduzem à vida) e estabelecendo, em suas sentenças, dois pesos e duas medidas, gerando impunidade. Assim, a espada sempre termina virando para o lado daqueles que não se utilizam de espertezas e falcatruas, de tal forma que a balança, normalmente corrompida, acaba pendendo em detrimento daqueles que não dispõem de meios e bens materiais.

O que temos, em nossa realidade, é um verdadeiro sucateamento do aparato judicial. Constantemente somos informados de corrupções e mais corrupções, de CPIs que, impreterivelmente, terminam em grandes pizzas... Há uma constatação de que o fundamental é a manutenção de um sistema que respalda o jogo de interesse, gerando impunidade e fazendo brotar injustiça por todos os cantos.

No Tempo do Profeta: Apogeu e Injustiça

O livro do profeta Amós, ardoroso denunciador das injustiças sociais, parece pertencer ao período do reinado de Jeroboão II (783/743 a.C) – rei de Israel. Amós exerceu seu ministério profético no reino do Norte, em Israel.

Sob o governo de Jeroboão II, Israel atingiu novamente as fronteiras outrora fixadas por Davi e Salomão. Foi um tempo de grande expansão territorial e comercial. Israel conseguiu recuperar os territórios perdidos e houve uma fase de grande prosperidade, marcada pelas muitas e luxuosas construções, realizadas pelo trabalho escravo, chamado de corvéia. Também ocorreu um aumento de recursos agrícolas, desenvolvimento no campo têxtil e da tinturaria.

A profecia de Amós reflete sobre esta realidade de luxo, progresso e prosperidade material de Israel (Am 6,4-6). Ele denuncia também, com vigor, a corrupção e a injustiça deste mesmo período (Am 5,12).

A base político-econômica de sustentação de tal estrutura opressora, na área pública, era o sistema tributário, o qual sobrecarregava por demais os pequenos produtores. Além da pesada tributação, geradora de empobrecimento, havia ainda a fraude e a corrupção dos grandes proprietários (comerciantes) que usurpavam e submetiam os pequenos camponeses à escravidão (Am 2,6s; 8,4s). As bases do Estado tributário eram sustentadas pela força do exército e legitimadas pelos cultos nos santuários, ministrados pelos sacerdotes oficiais, funcionários da corte. Amós começa a anunciar o fim do exército e do Estado.

Neste contexto, a religião foi utilizada para justificar tal sistema político-econômico e tranqüilizar a consciência daqueles que se privilegiavam com o processo de empobrecimento dos camponeses, através da idéia de que tudo corria bem pelo fato de Israel ser o povo superior aos demais reinos, o povo eleito escolhido por Javé (Am 5,21s). O culto a Javé estava completamente desfigurado. Javé era cultuado com características de Baal (falso deus de um culto idolátrico responsável pela sustentação do sistema tributário) – era um Javé-Baal. O culto havia se tornado mecanismo de opressão, caracterizado como ‘religião oficial produzida’, nascida da dominação sobre a religiosidade do povo que fazia memória do Deus libertador, da tradição do êxodo.

Assim, todo o esplendor material que Israel atingiu, graças ao enfraquecimento da Síria, sob o governo de Jeroboão II, apenas serviu para alimentar a opulência da corte e dos ricos. Tanto um como outro, espoliavam os pobres, retirando tudo o que lhes pertencia, desde suas terras até seus corpos escravizados, tomados como pagamento das dívidas injustas.

Amós, Denunciador das Estruturas de Opressão

O fio condutor que perpassa os relatos presentes na profecia de Amós é o meio como ele não veio para por remendos novos em roupas velhas. Em outras palavras, ele não estava preocupado em fazer pequenas reformas para dizer que tudo ia ficar bem. Ele foi o primeiro profeta que apontou para a urgência da destruição de todo o sistema existente como solução para a retomada do valor do ser humano, não enquanto mercadoria, mas segundo o cumprimento da justiça, de forma a garantir a fidelidade ao Javé solidário, principalmente com os pequenos.

Amós denunciou o acúmulo dos bens provenientes da exploração dos pobres, realizado pela corte e gravemente conservado na indiferença para com os que nada tinham. Tanto luxo e tanta riqueza proporcionava uma preocupação inteiramente voltada para os interesses particulares da corte.

Mantendo uma posição de conflito para com as estruturas de sua época, Amós não deixou de levar adiante sua missão de denunciar toda a ideologia opressora (tributária), que se legitimava como o modelo perfeito para a organização política, social e religiosa. O caminho de reconciliação proposto por Amós passou pela distribuição eqüitativa dos bens e pela implantação da autêntica justiça nos tribunais.

A grande transformação que gera em nós a Palavra de Deus é justamente o discernimento para permanecermos com os olhos bem abertos diante das realidades que nos cercam. Neste sentido, tendo percorrido com Amós os desvios impostos à justiça, e olhando para a nossa sociedade, na qual a manutenção de um sistema perverso e a ambição do ser humano permanecem como um desafio que tem se mostrado construtor de grande descendência de desigualdades, chegamos à conclusão de que a sabedoria humana não deve estar compactuada com a iniqüidade social, e sim com a dignidade e a paz, mesmo que para isso seja necessária a destruição de um sistema.

Lutar por uma sociedade mais justa e solidária é o único meio de se romper com uma estrutura que, como outrora – no tempo de Amós – perpetua injustiças.


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