3. FAZER MEMÓRIA, RECUPERAR O SENTIDO: É PÁSCOA
   
 

Logo após a condenação e a crucificação de Jesus, os discípulos se dispersam. A dor da perda parece cegar-lhes frente à possibilidade de uma visão mais ampla, da busca da percepção do momento existencial do Mestre e de todo o grupo. Tudo se torna sem sentido. O caminho parece haver chegado ao fim. Só resta a descrença, afinal é duro manter a esperança quando tudo indica o contrário... Cai por terra toda tentativa de associar Jesus a um líder Messiânico que derrubaria o exército romano e, enfim, devolveria a soberania a Israel, como nos velhos tempos de Davi. E o pior: é impossível conviver com a idéia de um Messias pregado na cruz, local para bandidos e amaldiçoados.
Conviver com esta situação só poderia fazer com que estes seres humanos repensassem tudo o que viram, ouviram, experimentaram, enfim, viveram no longo caminho traçado junto ao Mestre. Creio que em suas cabeças, como numa grande tela, muitas e muitas vezes devia passar o filme no qual participaram ativamente, marcado por cenas de alegria contagiante, de surpresas inevitáveis, de repreensões muitas vezes incompreendidas, porém, enri-quecedoras, de dor, angústia e perplexidade frente a decisão tranqüila e serena diante da cruz. Como compreender a mensagem que perpassa o tênue limite de nossa idéia frente ao que nos acontece e o seu real alcance e significado? Como conseguir superar o sentimento de fragilidade e impotência frente ao rumo da vida que segue pelo leito traçado pelas artimanhas do cotidiano?
Aqui se encontra o marco fundante de tudo o que viria a caracterizar a impressionante força que brotou no coração destas mentes confusas e perdidas: é preciso uma guinada total em nossa mentalidade, em nossa forma de olhar para a realidade e de reconhecer os sinais que Deus nos apresenta nos fatos que vão pintando a grande e complexa tela da ação humana no mundo. Este homem, que viveu e ensinou a profundidade transformadora do amor, que nos faz superar os medos em busca de crescimentos constantes, que sempre incentivou a potencialização dos dons dos quais somos portadores, foi capaz de amar até o fim. Foi fiel ao projeto escolhido para marcar o sentido de seu viver e de seu caminhar em meio à humanidade. Assumiu a cruz como conseqüência desta mesma fidelidade e, ao mesmo tempo, como sinal de que sim podemos acreditar na humanidade, desde que a mesma se ponha nesta trajetória, desde que assuma viver como Ele viveu, sonhar como Ele sonhou, sem sermos meros repetidores de Jesus, mas continuadores de sua proposta.
Nesta descoberta, nascida do alegre reconhecimento de que Deus ressuscitou a este Jesus, confirmando sua vida e missão (At 10,37-43), nasce o anseio livre e consciente de que agora eles se tornam responsáveis por continuar o anúncio e o testemunho do Reino. De que cada pessoa é essencial para fazer surgir um novo tempo, um novo mundo, uma nova sociedade, onde homens e mulheres se tornam novos. Começam a anunciar ao ressuscitado com toda a força que vem de dentro, do mais profundo de seus corações, iluminados pela sabedoria descoberta na dor da perda superada no encontro com a vida que brota da morte. Iniciam o seu trajeto de anunciadores, ou seja, de catequistas, daqueles que procuram fazer ecoar a palavra de Deus em todo lugar.
A catequização se torna caminho gratuito oferecido àqueles que querem experimentar mais de perto esta novidade. Espaço de encontro entre aqueles e aquelas que desejam doar suas vidas por um projeto mais amplo. Pessoas que desejam aprender a fidelidade que nasce da consciência de papel único de cada pessoa na obra da criação. Pessoas que desejam crescer nesta escuta atenta e silenciosa dos sinais que emanam do solo da vivência, de forma a juntas encontrarem resposta a cada desafio, tendo princípios claros que os orientam nesta busca. Pessoas que querem ser cristãs. Na páscoa nasce uma nova esperança! Na páscoa nasce um novo jeito de semear esta esperança. Nasce a catequese. Nasce uma proposta de caminho a ser trilhado... Pegadas a serem deixadas pelas estradas de todos os cantos do mundo... Reascende-se a esperança! No próximo mês vamos conversar um pouco mais como estes primeiros cristãos foram operacionalizando, ou seja, que práticas foram marcando a presença e o método catequético assumido neste período de nossa história.

 
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