7. ENTRE O CRISTIANISMO E A CRISTANDADE:
A FORÇA FALA MAIS ALTO QUE A ESCOLHA

Com a aproximação do cristianismo e o Império Romano vai se iniciar uma nova fase da nossa história, que passou a ser conhecida como Cristandade, ou seja, a Igreja passa a ser um braço forte do poder civil, colaborando com o mesmo.
Como a obrigatoriedade frente ao cristianismo se tornou norma, todos, quase que automaticamente, passaram a ser cristãos. Obviamente o número dos seguidores de Jesus cresceu muito, parecendo que, enfim, as pessoas teriam se convencido da importância desse caminho a ser trilhado na vida. Mas, será que realmente as coisas são assim?
Todos nós sabemos que quando devemos obedecer a uma determinada lei, fazemos o que ela nos manda, num primeiro momento, por que tememos receber alguma sanção ou castigo quando não o fazemos. Sabemos, por experiência, que, por exemplo, se desrespeitarmos uma determinada regra de trânsito, poderemos levar uma multa e isso vai pesar no bolso e no apertado orçamento do mês, dificultando nossa vida. Fazemos valer o que foi determinado, muitas vezes, não por acreditarmos de verdade no que estamos fazendo, assumindo como princípio que rege nossa maneira de relacionarmo-nos com as decisões que tomamos, mas por temer o que pode acontecer se não o fizermos. A primeira oportunidade que surgir para burlar a lei será aproveitada! Assim sendo, mesmo que nos mostremos exímios cumpridores do nosso dever, as práticas que realizamos podem ficar na superficialidade externa de atos realizados, não como atitudes que brotam do mais profundo de nossas convicções pessoais. Uma prática assim não pode exigir sacrifícios, entrega total, espírito de gratuidade, amor e serviço.
O cristianismo, que havia trilhado o caminho da conversão nascida do encontro com a novidade de um grupo que vivia a força de sua fé, vê, aos poucos, esta novidade ser englobada pelo conjunto da sociedade, fazendo com que seu brilho fosse aos poucos sendo apagado. Não há mais necessidade de uma catequese de acompanhamento e preparação que exigia atitudes que comprovassem a conversão, afinal, não há quem converter, todos são agora membros da mesma Igreja. A catequese se torna, até certo ponto, desnecessária, ao menos como era entendida até então, como vimos nos artigos anteriores. Trata-se agora que acolher os novos membros da Igreja, deixar de sentir-se perseguida, escondendo-se nas catacumbas e porões do Império, para ocupar o centro deste mesmo Império. Passa-se a ocupar as grandes Catedrais, substituir os antigos cultos “pagãos” por cultos cristãos e ensinar o mínimo necessário para poder participar da vida da Igreja.
O número de cristãos passa a ser uma preocupação defendida pelo uso da norma e da força de lei. De grupo anteriormente perseguido, os cristãos passarão a grupo perseguidor, buscando “converter” aqueles e aquelas que ainda não aderiram às suas fileiras, como fez o grande imperador.
Uma mudança enorme se processa. Mudança profunda que, claro, não acontece de uma hora para outra. Com certeza ainda se sente o ar das primeiras comunidades e da dinâmica do caminho, tão importante e profunda. O problema é que, devagar porém continuamente, a dinâmica do caminho vai dando lugar à dinâmica da lei, das normas, dos mandamentos. Seguir e saber de cor os mandamentos torna-se mais importante que viver aprendendo a fazer escolhas maduras e adultas na vida, a partir da própria fé. A tradição se torna mais importante que a escolha pessoal, junto com o acomodar-se à situação, não se preocupando em saber o porquê ser cristão.
Hoje não encontramos muitas pessoas que dizem que são católicas porque os pais sempre foram? Que é uma tradição da família? Que sempre será assim? Muitas crianças que vem até nós, para a catequese, não vem empurradas pela força da tradição de receber os sacramentos e depois vão embora? Não nos vemos, muitas vezes, obrigados a enfrentar a briga com os pais pelo fato destes pensarem que a catequese é lugar para ensinar apenas as orações e os mandamentos e ponto final? Será que não estamos continuando a conviver com as conseqüências deste momento da história da catequese? Com certeza sim. Agora, cuidado! Há outros acontecimentos que continuarão a influenciar nossa ação catequética. O caminho ainda não terminou e precisamos continuar a trilhar por ele. Até a próxima.

 
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