8. DISCURSO DO MEDO SUPERA A FORÇA DA LIBERDADE
   
 

Uma das conseqüências do casamento entre a Igreja e o Estado romano foi a mudança de rumo que se processa no tocante a catequese, tal como vimos no artigo anterior. Ganha força a obrigatoriedade e a lei.
Para manter os cristãos dentro de uma determinada linha, apresentando comportamentos religiosos aceitáveis, inicia-se a utilização de um discurso que frisa muito a figura do inferno, de forma a causar nas pessoas uma aceitação das atitudes a serem tomadas através do medo da punição que poderiam receber eternamente.
Imagens, pinturas, músicas, enfim, a arte do período vai frisar sobretudo a imensa separação existente entre o ser humano e o Divino. Entramos no período medieval, onde a grandiosidade das catedrais deixa visível a pequenez do homem frente ao poder de Deus. Jesus passa a ser aclamado como Rei do mundo, juiz das ações dos homens, castigando com o fogo eterno aqueles e aquelas que não ajam de acordo com o pré-determinado e ditado por seus seguidores diretos: o clero.
Como a maioria das pessoas não tinha acesso à educação aprimorada, sendo esta reservada aos filhos dos senhores feudais, a forma de transmissão do conteúdo da fé se dá através do sermão e das artes. Teatros, vitrais, pinturas retratam e formam o universo religioso que vai ser experimentado pelas pessoas da época. Quem de nós nunca viu um vitral em que o morto fica dividido entre aceitar a Deus e ganhar as doçuras do céu, ou negá-lo e ser carregado para o fogo eterno?
A catequese enquanto processo de seguimento perde força. Não é mais tão necessária. O mais importante é resignar-se aos desígnios eternos interpretados pela Igreja. A hierarquia ganha muita força, separando-se dos fiéis. Os primeiros são os legítimos intérpretes e seguidores diretos de Jesus, os segundos são os ouvintes passivos do que é ensinado pelos primeiros.
Logicamente nem tudo entra nesta lógica. Muitos movimentos buscaram manter acessa a chama dos primeiros tempos do cristianismo. Uma figura importante nesta tentativa foi Francisco de Assis. Um jovem que abandona tudo para viver a pobreza junto aos mais pobres, que se põe na dinâmica do caminho, vivendo da insegurança que este mesmo traz. Muitos cristãos e cristãs buscaram alternativas, formando comunidades ao redor da palavra de Deus. Foram sinais de que a proposta cristã continua a chamar a uma profundidade sempre maior, vencendo a lei do menor esforço.
Discurso da obrigatoriedade, da lei, somado à figura do inferno, mantendo, através do medo, o número dos fiéis foi uma maneira utiliza durante um largo tempo para divulgar a mensagem de Jesus. Algo que, aos poucos, será abandonado, reassumindo a perspectiva do caminho, tal como veremos nos próximos textos. Porém, cabe nos perguntar: muitas vezes em nossa catequese não continuamos a utilizar um discurso baseado no medo e na punição, onde a palavra não é mais forte do que a proposta a ser realizada aos catequizandos, para que livremente dêem sua resposta? Em muitos catequistas não persiste a idéia de uma punição eterna para aqueles que não seguem as normas, lançando chamas e mandando ao inferno as pessoas? Essa mentalidade não acaba também sendo passada aos catequizandos, frisando muito mais a figura de um Deus-Pai punitivo do que um Abbá amor?
Aproveite para se reunir com o seu grupo de catequistas e busquem refletir qual é a base onde está alicerçado o que transmitimos aos nossos catequizandos. Reflitam sobre como organizamos o caminhar da catequese de nossa comunidade e paróquia, bem como sobre qual o discurso que se faz mais presente. Lembre-se sempre: não é somente o que falamos que acaba sendo assimilado pelos catequizandos, mas também o que lhes propomos em termos de experiência e como o fazemos.
Um grande abraço e até o próximo mês!

 
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