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Uma
das conseqüências do casamento entre a Igreja e o Estado
romano foi a mudança de rumo que se processa no tocante a
catequese, tal como vimos no artigo anterior. Ganha força
a obrigatoriedade e a lei.
Para manter os cristãos dentro de uma determinada linha,
apresentando comportamentos religiosos aceitáveis, inicia-se
a utilização de um discurso que frisa muito a figura
do inferno, de forma a causar nas pessoas uma aceitação
das atitudes a serem tomadas através do medo da punição
que poderiam receber eternamente.
Imagens, pinturas, músicas, enfim, a arte do período
vai frisar sobretudo a imensa separação existente
entre o ser humano e o Divino. Entramos no período medieval,
onde a grandiosidade das catedrais deixa visível a pequenez
do homem frente ao poder de Deus. Jesus passa a ser aclamado como
Rei do mundo, juiz das ações dos homens, castigando
com o fogo eterno aqueles e aquelas que não ajam de acordo
com o pré-determinado e ditado por seus seguidores diretos:
o clero.
Como a maioria das pessoas não tinha acesso à educação
aprimorada, sendo esta reservada aos filhos dos senhores feudais,
a forma de transmissão do conteúdo da fé se
dá através do sermão e das artes. Teatros,
vitrais, pinturas retratam e formam o universo religioso que vai
ser experimentado pelas pessoas da época. Quem de nós
nunca viu um vitral em que o morto fica dividido entre aceitar a
Deus e ganhar as doçuras do céu, ou negá-lo
e ser carregado para o fogo eterno?
A catequese enquanto processo de seguimento perde força.
Não é mais tão necessária. O mais importante
é resignar-se aos desígnios eternos interpretados
pela Igreja. A hierarquia ganha muita força, separando-se
dos fiéis. Os primeiros são os legítimos intérpretes
e seguidores diretos de Jesus, os segundos são os ouvintes
passivos do que é ensinado pelos primeiros.
Logicamente nem tudo entra nesta lógica. Muitos movimentos
buscaram manter acessa a chama dos primeiros tempos do cristianismo.
Uma figura importante nesta tentativa foi Francisco de Assis. Um
jovem que abandona tudo para viver a pobreza junto aos mais pobres,
que se põe na dinâmica do caminho, vivendo da insegurança
que este mesmo traz. Muitos cristãos e cristãs buscaram
alternativas, formando comunidades ao redor da palavra de Deus.
Foram sinais de que a proposta cristã continua a chamar a
uma profundidade sempre maior, vencendo a lei do menor esforço.
Discurso da obrigatoriedade, da lei, somado à figura do inferno,
mantendo, através do medo, o número dos fiéis
foi uma maneira utiliza durante um largo tempo para divulgar a mensagem
de Jesus. Algo que, aos poucos, será abandonado, reassumindo
a perspectiva do caminho, tal como veremos nos próximos textos.
Porém, cabe nos perguntar: muitas vezes em nossa catequese
não continuamos a utilizar um discurso baseado no medo e
na punição, onde a palavra não é mais
forte do que a proposta a ser realizada aos catequizandos, para
que livremente dêem sua resposta? Em muitos catequistas não
persiste a idéia de uma punição eterna para
aqueles que não seguem as normas, lançando chamas
e mandando ao inferno as pessoas? Essa mentalidade não acaba
também sendo passada aos catequizandos, frisando muito mais
a figura de um Deus-Pai punitivo do que um Abbá amor?
Aproveite para se reunir com o seu grupo de catequistas e busquem
refletir qual é a base onde está alicerçado
o que transmitimos aos nossos catequizandos. Reflitam sobre como
organizamos o caminhar da catequese de nossa comunidade e paróquia,
bem como sobre qual o discurso que se faz mais presente. Lembre-se
sempre: não é somente o que falamos que acaba sendo
assimilado pelos catequizandos, mas também o que lhes propomos
em termos de experiência e como o fazemos.
Um grande abraço e até o próximo mês!
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