14. FÉ E VIDA SE ABRAÇAM...APRENDER A OLHAR O TEMPO PRESENTE (Parte 1)
   
 

Como fruto do Concílio Ecumênico Vaticano II, a Igreja latino-americana viu florescer um conjunto de iniciativas que rumavam no sentido de um maior comprometimento com a realidade que nos cerca. Principalmente após a Conferência de Puebla, onde os bispos de nosso continente aplicaram os resultados do Concílio acima referido, nossa Igreja redescobriu a importância de olhar para as coisas a partir da ótica dos preferidos de Deus: os pobres. A opção preferencial pelos pobres trouxe para nossa experiência de fé e para a elaboração da teologia latino-americana um novo desafio: enfrentar a pobreza que desumaniza e desfigura o rosto de tantos irmãos(as) nossos.
Para melhor compreender o sistema que gerava esta pobreza excludente, um método passou a ser adotado: o conhecido esquema VER-JULGAR-AGIR. Vejamos um pouco melhor isso:
Olhar para a realidade com olhos atentos, buscando sondar o intricado jogo de interesses que determinava o futuro de povos e gerações era o primeiro passo a ser dado para se poder entrar em diálogo com o mundo que rodeava os muros de nossas Igrejas. Era um exercício incentivado pelo próprio Concílio. Contudo, isso requeria um aprofundado mergulho em áreas até então não tão importantes para os cristãos: as ferramentas das ciências sociais. Com a ajuda de tantos seres humanos que dedicavam suas vidas para aprofundar a análise da sociedade, a Igreja pode conhecer melhor o mecanismo de dominação-exclusão, bem como a dinâmica excludente que faz parte de sua própria engrenagem. Essa aproximação também possibilitou superar pré-conceitos presentes em muitas análises que se faziam da situação de pobreza: falta de estudo, preguiça, acomodação do povo... Percebeu-se que a mesma era fruto de um sistema econômico que privilegia a concentração de renda nas mãos de poucos, concentrando os meios de produção e o lucro obtido com a venda dos materiais produzidos pela força de trabalho do trabalhador. Para esse sistema, tem valor quem pode comprar ou vender, nem que a mercadoria para ser negociada seja a própria vida...
É claro que quanto mais se aprofundava essa análise, mais amplas e desafiadoras se tornavam as respostas a serem dadas, em busca da salvação integral das pessoas. Não era sem cruz e sofrimento que se deveria buscar colaborar para a construção de um mundo mais justo e humano. Conjuntamente, mais perigosos ficavam, para os poderosos, aqueles e aquelas que começavam a abrir melhor seus olhos para o que estava acontecendo. Era necessário diminuir o impacto do processo e silenciar vozes que começavam a ser ouvidas... Muitos mecanismos foram usados para esse fim: chamar os padres de padres vermelhos (comunistas); lembrar que lugar de padre é na sacristia da Igreja, falando de Deus e não dos problemas sociais; desqualificar os estudos realizados e as conclusões a que se chegava; e, por fim, até mesmo matar! Quantas pessoas doaram suas vidas durante um longo período da história de nosso continente!
Logo no início do cristianismo, houve quem lembrasse que o “sangue dos mártires era semente dos cristãos”, referindo-se que a cada testemunho de doação total de um seguidor(a) de Jesus, a Igreja via crescer o número de membros. O testemunho de tantas pessoas na América Latina fez aflorar um jardim florido de cores e de profundo amor pela causa do Reino, aumentando o número das pessoas que abraçaram a causa do Salvador até o fim. Esses exemplos são vozes que ecoam de maneira viva - e em alto e bom som - a Palavra de Deus: são catequese...
Será que nós nos preocupamos em conhecer profundamente a realidade que nos cerca? Tiramos tempo para analisar as crianças com as quais trabalhamos, a realidade de sua famílias e o contexto onde estão inseridas? Essa aproximação nos ilumina para uma melhor incidência nesse mesmo contexto? É preciso refletir questões como estas se quisermos adentrar em um processo de catequese renovada...

 
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