5. LIVROS  HISTÓRICOS II - TEOLOGIA DEUTERONOMISTA
"Juliano Peroza / Cláudio Bertotto"

Seguindo a mesma temática do artigo anterior, no qual abordamos brevemente sobre os Livros Históricos da Bíblia, gostaríamos de recordar sobre uma promessa que fizemos para esta vez: “tratar das teologias que permeiam os livros históricos, em especial a deuteronomista.”
Para que isso seja possível, é necessário que esclareçamos esta afirmação. Quando dizemos “teologias”, queremos dizer das várias maneiras de compreensão de Deus que algumas pessoas tiveram e acabaram influenciando historicamente e transparecendo claramente em alguns livros com um gênero literário (jeito de escrever) próprio. A teologia deuteronomista que encontramos dentre os livros históricos tem base em outro livro da Bíblia que ainda não havíamos falado: o Deuteronômio.
O livro do Deuteronômio foi escrito por vários autores e em diferentes épocas até chegar ao seu estado atual. De início eram preceitos e princípios tribais que foram sendo passados familiarmente através da tradição oral nas celebrações, fazendo a memória da libertação do Egito. Com o passar do tempo isto foi sendo agrupado, tornado-se norma para um pequeno grupo e posteriormente para os demais. Depois estas leis foram guardadas nos santuários onde serviam para resolver temas práticos e jurídicos nas reuniões. Por isso temos no Deuteronômio muitas leis civis e religiosas que retomam o Êxodo (Dt 15,1-11 e Ex 23,10-11=ano sabático; Dt 15,19-23 e Ex 22,28-29=primícias e primogênitos)
O Deuteronômio é o projeto de reorganização do povo que quer restabelecer o modelo igualitário da época tribal. Esta “lei” procura fazer a teologia do povo de Deus e de sua organização político-social. O código deuteronomista (que está principalmente em Dt 12-26) quer mostrar que esta organização vem desde os tempos de Moisés, onde Israel apresentava-se como o povo escolhido por que vivia um modelo alternativo, que baseava-se na justiça, na igualdade e na solidariedade. As características da proposta de organização igualitária vemos em Dt 15,11: “abre a mão em favor do teu irmão do teu humilde e do teu pobre”. O texto mostra que a fidelidade ao Deus da vida que faz aliança, exige compromisso com aqueles que por algum motivo estão privados de vida.
Podemos encontrar a história deuteronomista em:
Josué: significa “Deus é salvação” (Nm 13, 16), Josué foi quem guiou os israelitas na vitória contra os amalecitas em Rafidim (Ex 17, 8-16); acompanhou Moisés ao monte Sinai quando este recebeu as Tábuas da Lei (Ex 24, 13). Foi designado por Moisés para conduzir o povo para a terra de Canaã. O livro não é uma descrição detalhada da conquista de Canaã pelas tribos israelitas, mas o autor preocupou-se em mostrar que o verdadeiro conquistador do país foi Javé e a geração de Josué foi irrepreensível na observância da lei divina.
Se quisermos ver a mentalidade deuteronomista em Josué é importante ler o Js 21, 43-45, onde na conquista se reconhece que Deus cumpriu suas promessas e em Js 23, onde Josué na sua despedida anima ao povo a servir a Deus e evitar parentescos com as nações pagãs. A mensagem do Deuteronômio aqui, insistia na absoluta santidade de Israel que não deveria aceitar costumes de outros povos e evitar qualquer tipo de contato com eles.
Juízes: foram líderes carismáticos suscitados por Deus para salvar os filhos de Israel da opressão de outros povos. Foram comandantes ocasionais que tinham poderes militares e civis. O livro narra a façanha de doze juízes (Jz 3, 7 – 16,31), onde as tribos israelitas não possuíam uma unidade, ainda não eram uma nação. Tinham em comum o mesmo Deus, a mesma lei e o mesmo passado. Neste período ocorreram muitas guerras entre os israelitas e as populações vizinhas (cananeus e filisteus). Acontecia de nessas guerras Israel abandonar seu verdadeiro Deus e seguir ídolos dos outros povos. Para isso, o Deuteronômio determinava maldições para perder o auxílio divino e a posse da terra. Somente quando o povo se convertesse e voltasse a ser fiel a Deus, Deus enviaria salvadores que derrotariam os seus inimigos. Este esquema “pecado-castigo-conversão-salvação” é próprio da teologia deuteronomista e seve para ilustrar toda a história de Israel.
1 e 2 Samuel: O conteúdo dos dois livros pode ser dividido em três partes, tendo como base as pessoas que sucessivamente governaram Israel: o profeta Samuel, e os reis Saul e Davi.
Falam dos últimos anos da época dos juízes (1Sm 1–7), das origens da monarquia com Saul (1Sm 8-15), a escolha de Davi para o trono (1Sm 16- 2Sm 7) e da história da sucessão de Davi (2Sm 9-20). Podemos notar a influência deuteronomista em 1Sm 12,6-16, onde a garantia do êxito estará na obediência a Deus e na observância de seus mandamentos.
1 e 2 Reis: começam com a história de Salomão (1Rs 3,11). Com a divisão de seu reino após a sua morte (2Rs 12) em Israel e Judá. Se deseja-se, porém, conhecer a mentalidade deuteronomista, convém ler com atenção a oração que o rei pronuncia por motivo da dedicação do templo (1Rs 8,33-40). Nesta mesma linha vemos o tema da conversão (1Rs 8, 22-53) e a claríssima referência ao exílio (1Rs 8, 46-51). As conseqüências do não-cumprimento da lei são expostas em 1Rs 11, 10: “e que lhe havia proibido expressamente que seguisse outros deuses, mas ele não obedeceu ao que Javé lhe ordenara”.
Ficamos aqui com uma pequena dica para quem gosta de história, principalmente a história do povo de Deus. E queremos dar um pequeno aviso para quem gosta de Salmos, pois este será o tema do nosso próximo encontro, para continuarmos a caminhada pelo Antigo Testamento e compreender melhor o povo de onde saiu o Cristo Salvador. Até mais amigos!

 
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