8. A MISSÃO PROFÉTICA É A NOSSA MISSÃO
"Augusto Matos"

A narração da Bíblia já é uma interpretação da história. Há no texto uma hermenêutica (interpretação da história) do passado, fazendo com que sejamos capazes de entendê-la e compreendê-la atualizando-a para a nossa realidade.
Em alguns livros Bíblicos, (Êxodo, Reis, Juizes, 1 e 2 Samuel, Deuteronômio) vemos nitidamente que Deus se faz presente na história da humanidade, pois escuta o clamor do seu povo, um povo que precisa de uma esperança para viver e colocar em prática o projeto igualitário e fraterno, como era vivido no sistema do tribalismo.

MONARQUIA:
O DESPERTAR DO PROFETA
O surgimento da monarquia ocorreu devido a queda do sistema tribal. Isso se deu porque um pequeno grupo de Israel foi acumulando mais bens em relação às demais famílias israelenses. Para impôr a monarquia, eles alegaram a necessidade de segurança e pedem a Samuel um rei para governá-los (1Sm 8), alguém que os guie e cuide do povo. Samuel os adverte sobre os males que um rei lhes é capaz de fazer. Mas o povo não o ouve e exige Saul, como o seu rei.
O rei deve escolher uma capital, construir palácios fortificados, ter um exército, possuir funcionários e um templo para centralizar a religião e a difundir aos povos vizinhos. Isso legitimava o poderio do rei (1Rs 9,26-28). Ele dizia que tinha o poder de entrar em contato direto com Deus – os sacerdotes que faziam parte do palácio e que estavam a serviço do rei.
Para sustentar todo esse aparato, o rei precisava de dinheiro e para conseguir dinheiro era necessário que colocasse o povo no trabalho forçado. Era preciso saquear as províncias mais fracas e principalmente cobrar impostos de todo o povo que morava ao redor do palácio. Esse dinheiro era todo concentrado nas mãos do rei (Dt 17,14-20).
No templo, que se situava dentro dos muros do palácio, havia todo um culto bonito, pomposo e elegante, que era freqüentado somente pelos ricos; longe do povo sofrido que vivia numa pobreza cada vez maior devido aos altos impostos que eram cobrados para manter toda a corte. Isso era uma ideologia do rei. As pessoas que se encontravam dentro das muralhas do palácio viam a pobreza como sendo um castigo de Deus sobre os pecados cometidos, ou seja, quem era pobre era porque seus antepassados cometeram algum pecado e eles estariam pagando por este “erro” e quem era rico era porque tinha sido abençoado por Deus (Dt 15,4).
É neste contexto de opressão e de sofrimento do povo que surgem os profetas. São aqueles que conseguem ter um discernimento sobre o que o povo está passando (suas dificuldades e sofrimentos) e tem coragem de denunciar a corrupção, ou seja, é o despertar a fé de que Deus escuta o clamor de seu povo (pobre) e se faz presente na vida das pessoas. Transformam o grito do pobre em apelo de Deus revelando ao povo a sua missão. É o sonhar com um mundo novo e fraterno totalmente diferente do qual estavam vivendo.
Eles surgiram em uma época muito crítica e difícil da história da Bíblia, é o momento da implantação da monarquia e de prosperidade econômica para o Estado, que era usufruído apenas por alguns, e ainda visto como benção de Deus. Por outro lado os reis abandonavam Deus para fazer aliança com divindades e povos vizinhos. A profecia durou todo o período da monarquia (pré-exílio), que levou o povo ao exílio. Já também os profetas animaram o povo a manter-se fiel a Deus, até a volta para Israel em 520 a.C., e aí também houveram profetas que ajudaram o povo a reconstituir a vida do povo (pós-exílio). Em Deuteronômio 15,4-5 temos que a memória do povo despertou os profetas para que levantassem a voz dizendo ao povo que não esquecessem as maravilhas que Deus tinha operado para libertá-los da escravidão do Egito e conduzi-los à terra prometida. É a aliança que Deus fez com seu povo.
É importante destacar que o surgimento do movimento profético não se deu dentro dos palácios, e sim no meio do povo que está na miséria e que precisa buscar uma saída para poder se livrar das mãos do reis.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Todo o movimento profético veio para resgatar a aliança com Javé que se perdeu de vista, e criticar a condição em que o povo vivia – que o rei escravizava mulheres e crianças para que o tributo fosse pago. O duro é que havia por detrás disso tudo uma legitimação do sacerdote, juízes, cobradores de impostos e de alguns falsos profetas que se vendiam para poder viver na mordomia que o palácio oferecia.
Hoje em dia, cabe a cada um de nós sermos profetas no bairro (vila), na cidade, no estado, no país e enfim, no mundo em que vivemos. Devemos ser anunciadores da verdade reatando a aliança feita com Deus e avaliar todo o processo de opressão e marginalização no qual nós vivemos.
Veremos nos próximos encontros sobre alguns profetas específicos que por adesão ao projeto de Deus buscam ser sinais no tempo: pré-exílio, exílio e pós-exílio. Aguarde os próximos encontros!!!

 
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