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A
narração da Bíblia já é uma interpretação
da história. Há no texto uma hermenêutica (interpretação
da história) do passado, fazendo com que sejamos capazes
de entendê-la e compreendê-la atualizando-a para a nossa
realidade.
Em alguns livros Bíblicos, (Êxodo, Reis, Juizes, 1
e 2 Samuel, Deuteronômio) vemos nitidamente que Deus se faz
presente na história da humanidade, pois escuta o clamor
do seu povo, um povo que precisa de uma esperança para viver
e colocar em prática o projeto igualitário e fraterno,
como era vivido no sistema do tribalismo.
MONARQUIA:
O DESPERTAR DO PROFETA
O surgimento da monarquia ocorreu devido a queda do sistema tribal.
Isso se deu porque um pequeno grupo de Israel foi acumulando mais
bens em relação às demais famílias israelenses.
Para impôr a monarquia, eles alegaram a necessidade de segurança
e pedem a Samuel um rei para governá-los (1Sm 8), alguém
que os guie e cuide do povo. Samuel os adverte sobre os males que
um rei lhes é capaz de fazer. Mas o povo não o ouve
e exige Saul, como o seu rei.
O rei deve escolher uma capital, construir palácios fortificados,
ter um exército, possuir funcionários e um templo
para centralizar a religião e a difundir aos povos vizinhos.
Isso legitimava o poderio do rei (1Rs 9,26-28). Ele dizia que tinha
o poder de entrar em contato direto com Deus – os sacerdotes
que faziam parte do palácio e que estavam a serviço
do rei.
Para sustentar todo esse aparato, o rei precisava de dinheiro e
para conseguir dinheiro era necessário que colocasse o povo
no trabalho forçado. Era preciso saquear as províncias
mais fracas e principalmente cobrar impostos de todo o povo que
morava ao redor do palácio. Esse dinheiro era todo concentrado
nas mãos do rei (Dt 17,14-20).
No templo, que se situava dentro dos muros do palácio, havia
todo um culto bonito, pomposo e elegante, que era freqüentado
somente pelos ricos; longe do povo sofrido que vivia numa pobreza
cada vez maior devido aos altos impostos que eram cobrados para
manter toda a corte. Isso era uma ideologia do rei. As pessoas que
se encontravam dentro das muralhas do palácio viam a pobreza
como sendo um castigo de Deus sobre os pecados cometidos, ou seja,
quem era pobre era porque seus antepassados cometeram algum pecado
e eles estariam pagando por este “erro” e quem era rico
era porque tinha sido abençoado por Deus (Dt 15,4).
É neste contexto de opressão e de sofrimento do povo
que surgem os profetas. São aqueles que conseguem ter um
discernimento sobre o que o povo está passando (suas dificuldades
e sofrimentos) e tem coragem de denunciar a corrupção,
ou seja, é o despertar a fé de que Deus escuta o clamor
de seu povo (pobre) e se faz presente na vida das pessoas. Transformam
o grito do pobre em apelo de Deus revelando ao povo a sua missão.
É o sonhar com um mundo novo e fraterno totalmente diferente
do qual estavam vivendo.
Eles surgiram em uma época muito crítica e difícil
da história da Bíblia, é o momento da implantação
da monarquia e de prosperidade econômica para o Estado, que
era usufruído apenas por alguns, e ainda visto como benção
de Deus. Por outro lado os reis abandonavam Deus para fazer aliança
com divindades e povos vizinhos. A profecia durou todo o período
da monarquia (pré-exílio), que levou o povo ao exílio.
Já também os profetas animaram o povo a manter-se
fiel a Deus, até a volta para Israel em 520 a.C., e aí
também houveram profetas que ajudaram o povo a reconstituir
a vida do povo (pós-exílio). Em Deuteronômio
15,4-5 temos que a memória do povo despertou os profetas
para que levantassem a voz dizendo ao povo que não esquecessem
as maravilhas que Deus tinha operado para libertá-los da
escravidão do Egito e conduzi-los à terra prometida.
É a aliança que Deus fez com seu povo.
É importante destacar que o surgimento do movimento profético
não se deu dentro dos palácios, e sim no meio do povo
que está na miséria e que precisa buscar uma saída
para poder se livrar das mãos do reis.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Todo o movimento profético veio para resgatar a aliança
com Javé que se perdeu de vista, e criticar a condição
em que o povo vivia – que o rei escravizava mulheres e crianças
para que o tributo fosse pago. O duro é que havia por detrás
disso tudo uma legitimação do sacerdote, juízes,
cobradores de impostos e de alguns falsos profetas que se vendiam
para poder viver na mordomia que o palácio oferecia.
Hoje em dia, cabe a cada um de nós sermos profetas no bairro
(vila), na cidade, no estado, no país e enfim, no mundo em
que vivemos. Devemos ser anunciadores da verdade reatando a aliança
feita com Deus e avaliar todo o processo de opressão e marginalização
no qual nós vivemos.
Veremos nos próximos encontros sobre alguns profetas específicos
que por adesão ao projeto de Deus buscam ser sinais no tempo:
pré-exílio, exílio e pós-exílio.
Aguarde os próximos encontros!!! |
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