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A
experiência que os escravos do Egito fizeram com Deus, narrada
no livro do Êxodo, é tida pela tradição
judaico – cristã, como a “manjedoura” que
deu origem ao povo de Deus.
Os eventos deste livro são tão importantes que ao
longo de toda a Bíblia, eles são recontados, reinterpretados.
O próprio Jesus ao nascer precisa fugir para o Egito e lá
Ele refaz a experiência vivida por seus antepassados. A sua
morte e ressurreição se dão durante a Páscoa,
esta que celebra a saída da escravidão do Egito.
O Êxodo inicia mostrando uma realidade concreta, real, na
qual, o povo estava vivendo. “Os egípcios escravizavam,
pois, os filhos de Israel com brutalidade e amarguravam-lhes a vida
por meio de uma dura servidão, com a fabricação
de argamassa e de tijolos, com trabalho no campo e com todo tipo
de servidão que brutalmente lhes impunham” (Ex 1, 13).
Mas, embora a opressão fosse gigantesca, o povo não
se dava por vencido. Os escravos se uniram e se organizaram. O que
fez deles um grande grupo de resistência ao poder que dominava.
Isto causou preocupação ao Faraó egípcio,
que temendo uma revolução, procurou desestabilizar
aquele grupo. Ele mandou as parteiras matar os filhos deles ao nascerem.
As parteiras viveram um grande dilema. Se elas não obedecessem
ao Faraó, este as mataria. Se matassem as crianças,
estariam sendo contra a Vida e conseqüentemente contra Deus.
O dilema, que, elas viveram é semelhante aos que vivemos
no dia-a-dia, quando nos deparamos com os nossos problemas particulares
e coletivos.
Elas poderiam se ajoelhar em oração e pedir que Deus
mandasse o seu exército celeste para resolver aquela situação.
Ou fugir do Egito para não serem co-responsáveis por
tamanha atrocidade. Ou executar as ordens do Faraó, se justificando
que nada poderiam fazer, pois não tinham nem liberdade e
nem forças para tal.
Todas estas atitudes seriam, do ponto de vista social, justificáveis,
pois o que norteia a sociedade, não são os princípios
de Deus e da Vida, mas a ganância e o interesse pessoal.
Mas estas mulheres, que amavam a Deus e com Ele mantinham um profundo
relacionamento, decidem lutar pela Vida. Não de uma maneira
mágica, mas na sua condição de ser humano,
frágil e finito.
Elas agiram com coragem e astúcia, enganando o Faraó
lhe dizendo que “As mulheres dos hebreus não são
como as egípcias; são cheias de vida; antes de a parteira
chegar, já deram a luz” (Ex 1, 19).
“Semelhante postura teve “Moisés que, já
crescido, saiu para ver os seus irmãos, e viu as tarefas
que pesavam sobre eles; viu também um egípcio que
feria um de seus irmãos hebreus. E como olhaste para uma
parte e outra e visse que ninguém estava ali, matou o egípcio
e o escondeu na areia.” (Ex 2, 11-12).
A atitude destes personagens bíblicos (Moisés e as
parteiras) representam a atitude de toda a comunidade dos escravos
(hebreus), esta que estava disposta a lutar pela sua liberdade,
por uma vida mais digna, onde não houvesse desigualdade social.
Nisto a comunidade conseguiu reconhecer a “cara” de
Deus.
Quando homem e a mulher assumem a sua vocação na luta
pela Vida, a cegueira de seus “olhos” desaparece e elas
percebem como Deus se revela à humanidade. Em um diálogo
com Moisés, Deus revela quem Ele é e como Ele se relaciona
com a humanidade.
“Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está
no Egito. Ouvi o seu clamor por causa dos seus opressores; pois
eu conheço as suas angústias. Por isso desci a fim
de libertá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-lo
subir daquela terra para uma terra boa e vasta, uma terra que mana
leite e mel.” (Ex 3, 7 – 8a).
A partir do momento em que o ser humano reconhece Deus, este desempenha
um papel fundamental no processo de libertação da
escravidão. Deus é aquele que congrega a comunidade,
que a anima e que cobra das pessoas uma ação transformadora.
Assim, ambos fazem a sua parte. O ser humano resiste, enfrenta o
poder dominante do Faraó. Deus manda sinais, que são
traduzidos pela comunidade dos escravos como “as pragas do
Egito” (Conferir em Ex 7 –11). Assim eles conseguiram
sair do Egito e partir para a Terra Prometida. (Conferir em Ex 12
–19).
Deus que ama o seu povo e que por isto tem um projeto de vida bom
para eles, decide fazer uma aliança com o povo para que nunca
mais o povo volte para a escravidão. Assim no Monte Sinai
Deus e o ser humano selam uma aliança. Deus fala para Moisés:
“Vós mesmos vieste o que eu fiz aos egípcios,
e como vos carreguei sobre as asas de águia e vos trouxe
a mim. Agora, se ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança,
serei para mim uma propriedade peculiar entre todos os povos.”
(Ex 19, 4 – 5).
Mas, durante o processo de libertação, o povo desiste
de lutar, o povo prefere a vida de escravos que tinham no Egito.
“Lembramo-nos dos peixes que no Egito comíamos de graça;
dos pepinos, dos melões, dos alhos silvestres, das cebolas
e dos alhos.”(Nm 11, 5).
Eles desistem do projeto libertador de Javé e constróem
um bezerro de ouro para eles. (Conferir em Ex 32.). Há possibilidade
da volta para a escravidão, pois o seu coração
ainda é de escravos.
Mas Deus não desiste de seu povo e refaz a aliança
e continua a caminhada com o seu povo para a Terra, “onde
corre leite e mel”. |
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