27. JESUS E O CAMINHO DA PAIXÃO
"Valdinar Lira do Nascimento"

Caros amigos(as). Estamos caminhando na trajetória de dialogar, conhecer e aprofundar mais de perto a proposta do Evangelho de São Marcos. Espero que essa caminhada possa iluminar o nosso cotidiano dando respostas aos presentes desafios da realidade.
Convido a você fazer uma caminhada através dos três anúncios da paixão de Jesus:
1) Mc 8,27-38;
2) Mc 9,30-37;
3) Mc 10,32-45.
Com a paixão de Jesus ao longo do caminho, podemos compreender e dar razão à nossa fé na pessoa e na missão de Jesus de Nazaré. A paixão de Jesus está presente nas paixões de tantas pessoas que vivem nas comunidades, nas pastorais e nos movimentos sociais que testemunham radicalmente o projeto libertador de Jesus de Nazaré. Assim, os anúncios da paixão se tornam o cerne, o núcleo da fé cristã na perspectiva da ressurreição. É a ressurreição a força motivadora para os discípulos superarem as contradições, as dificuldades e os desafios da caminhada.
É no caminho de Cesárea de Felipe (8,27 a) para Jerusalém (10,32) que Jesus ensinará os discípulos sobre as implicações do seu projeto. Ele mostrará como devemos segui-lo mediante os conflitos, crises e desafios. A pedagogia de Jesus será um processo de contínua partilha e ensinamentos no caminho. Para isso, ele precisou ficar sozinho com os discípulos a fim de catequizá-los. É no caminho que a sua catequese, a sua formação ocorrerá. Será uma longa catequese sobre o “seguimento”.
A comunidade de Marcos é marcada por uma experiência de conflitos e crises. Diante disto, ela constrói a imagem de Jesus. Por isso que em Mc 8,27-30, Jesus no auge da crise, quis avaliar a caminhada da sua comunidade fazendo uma pergunta simples e direta: “Quem dizem os homens que eu sou?”.

Primeiro Anúncio
Antes de falar abertamente à sua comunidade, Jesus precisava saber como os seus pensavam a seu respeito. Essa pergunta teve de imediato a resposta de Pedro como líder da sua comunidade: “ Tu és o Messias” (8,29b). Essa resposta está intrinsecamente relacionada ao início do Evangelho de Marcos (1,1). A resposta de Pedro é uma profissão de fé que retrata a concepção da comunidade sobre a espera judaica e triunfalista de um Messias. Mas, para corrigir essa visão, Jesus começa a ensinar com a predição da sua morte: “o filho do homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos Sacerdotes e doutores da lei, deve ser morto e ressuscitar depois de três dias”.(Mc 8,31).
É por isso que o evangelista Marcos fala que a sua comunidade deve seguir “um messias humano, o Filho do homem”. O Messias de Marcos é aquele que assume a humanidade como condição de servo sofredor. Ele se torna um paradigma de seguimento, porque é no caminho que Jesus exigirá de seus discípulos: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois, quem quiser salvar a sua vida, vai perdê–la; mas, quem perde a sua vida por causa de mim e da Boa Notícia, vai salvá–la..”(8,35 ).
Com essa exigência, Jesus quis que o seu discipulado tivesse uma dupla atitude: uma de renunciar a si mesmo e outra de tomar a cruz. O seu seguimento passa pela dolorosa paixão na Cruz, mas também, há uma esperança na caminhada que não se restringe ao sofrimento. Está subjacente a perspectiva da ressurreição. Dessa forma, a transfiguração (9, 1-13) será o momento em que Deus revelará o quanto o projeto dele vale a pena ser seguido, e também é o momento da antecipação da glória do “filho do homem”. Nessa experiência, Pedro pediu a Jesus: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias.”(9,5). Isso mostra o quanto os discípulos desejavam fugir do caminho da paixão, da cruz, mas Jesus não deixa de ensinar, mostra que o seu caminho é o da cruz, como fora o de João Batista, e que o destino dos profetas é necessariamente o da cruz, e o seu não podia ser diferente, como também o daqueles que o seguem.

Segundo Anúncio
No caminho para Jerusalém acontece o segundo anúncio da paixão: “O filho do homem vai ser entregue na mão dos homens, e eles o matarão. Mas, quando estiver morto, depois de três dias ele ressuscitará”.(cf. 9,30–37). Novamente Jesus anuncia de como o seu seguimento deverá ser, passará pela cruz. Seguimento e cruz são inseparáveis. Porém, os discípulos não compreenderam, e entre si, discutiam quem era o maior (9,34). Jesus mostrará que o maior é aquele que serve, o primeiro deve ser o último, mudando assim, completamente, a lógica da caminhada. Infelizmente os discípulos estavam presos aos velhos moldes de ver a caminhada como um privilégio ao lado de um Messias que iria transformar a presente sociedade. No entanto, o caminho de Jesus passa pela humildade e pelo serviço. Coloca no meio deles a criança (9, 36-37) como símbolo do menor que está aberto a abraçar a cruz.

Terceiro Anúncio
Estão subindo para Jerusalém e, embora já saibam qual seria o destino de Jesus, acontece o anuncio: “...o Filho do Homem vai ser entregue aos chefes dos sacerdotes e aos doutores da Lei. Eles condenarão à morte e o entregarão aos pagãos. Vão caçoar dele, cuspir nele, vão torturá-lo e matá-lo. E depois de três dias ele ressuscitará”.(cf.10,33-34). Esse último anúncio mostrará claramente que o seguimento de Jesus não tem privilégios como pensavam os discípulos, porque a caminhada é marcada não só de glória. Passa pela coragem de deixar tudo para suportar a opção de vida que levará ao longo do caminho. O caminho de Jesus será marcado de rejeição, de perseguição, de luta e de sofrimento. Essas são as condições para se chegar à glória.
E para, definitivamente, mostrar que para seguí-lo é preciso muitas vezes ser curado da surdez e da cegueira, estas estavam presentes durante todo o caminho. Por isso estava difícil que os discípulos compreendessem a mensagem de Jesus a respeito da sua paixão como condição de seguí-lo.
Portanto, os três anúncios da paixão de Jesus se encerra com a cura do cego de Jericó (10,46-52). O cego curado se põe a “seguir a Jesus pelo caminho”, o que não fizera o cego de Betsaida, no capítulo 8, e nem o homem rico. Bartimeu é apresentado, assim, como modelo do discípulo. Jesus cura e ilumina seus discípulos, tornando-os capazes de seguí-lo.

 
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