28. HORIZONTES NOVOS NOS CAMINHOS ANTIGOS:
O CEGO BARTIMEU (Mc10,46-52)
"Ademar Cason"

“… o seguia no caminho” (Mc 10,52b)
É nesse espírito de seguir Jesus pelo caminho que queremos conduzir nossa reflexão, para assim, termos uma melhor compreensão de seus ensinamentos e podermos acompanhá-lo mais de perto. Buscamos inspiração no “cego Bartimeu” que nos apresenta algumas pistas para visualizar horizontes novos nos caminhos antigos, e assim, termos uma visão ampla, que seja capaz de nos orientar nestas pegadas de seguimento ao Divino Salvador. Certas coisas que fazemos no dia-a-dia se tornam corriqueiras e passam despercebidas de um sentido mais profundo. Nossos caminhos, geralmente, são os mesmos: vamos para a escola, para o trabalho, saímos com os amigos, e outros tantos. No Evangelho de Marcos, o verdadeiro encontro com Jesus se dá no caminho, e assim ele nos convida a olharmos mais atentamente para os caminhos que percorremos no dia-a-dia, pois nele pode estar a oportunidade do verdadeiro encontro com Jesus e a chance de segui-lo mais de perto. É nesse sentido que o Evangelho de Marcos, através da parábola, que narra a “cura do cego Bartimeu”, quer nos convidar a sermos seguidores de Jesus num novo jeito de se viver.
Queremos compreender a mensagem do cego Bartimeu dentro de nossa realidade, e, para tal, se faz necessário apresentar um panorama geral de como se articulam as relações em nossa sociedade. A realidade de mundo em que vivemos é conflitante e exime o ser humano de qualquer comprometimento com seu próximo. A regra é aproveitar ao máximo o momento presente, o que tende a acentuar um mundo de aparências, pois o que é valorizado são as coisas efêmeras, transitórias e superficiais. A atitude individualista de olhar para as coisas, aumenta a competitividade fazendo com que muitos sejam excluídos de seus direitos, ficando à margem da sociedade. Esse modo de viver faz com que o ser humano não consiga estabelecer relações estáveis, seguras, entre a sua vida e o mundo. Assim, o ser humano vive em um tempo em que as coisas não soam tão claras, fazendo com que se sinta perdido sem saber qual rumo tomar.
Jesus dá inicio a uma caminhada, “... ao sair de Jericó com seus discípulos e grande multidão, estava sentado à beira do caminho, mendigando, o cego Bartimeu...” (v.46). Hoje, como nós, grandes multidões procuram seguir Jesus, mas muitos dos que o seguem estão presos à mentalidade daquela multidão que o seguia em seu tempo. Caminhavam ao seu lado alimentados pela esperança de que Jesus realizaria milagres que resolvesse todos os seus problemas particulares sem que os mesmos se comprometessem, se esforçassem para transformar a realidade. A visão da maioria que o segue é de uma mentalidade triunfalista, onde o poder e a hierarquia deve governar. Esse modo de ver o mundo constitui a grande cegueira daqueles que não conseguem perceber a realidade como ela é. Entre os que seguiam Jesus estavam os discípulos, aos quais Ele dedicava mais tempo para que pudessem melhor aprender e pôr em prática as experiências que iam fazendo ao longo do caminho; mas também estavam cegos, pois esperavam de Jesus o mesmo que as multidões.
Jesus nos mostra que o caminho é conflitante e é em meio a essa realidade que se faz necessário testemunhar o projeto de Deus. O grande obstáculo que aparece no caminho é a cegueira que não permite uma ação transformadora. O cego vive a mendigar, mas quando “ouviu que era Jesus ...começa a gritar”, e embora muitos o repreendessem para que se calasse ele gritava mais ainda: “Filho de Davi tem compaixão de mim!”. Como na época de Jesus, hoje também encontramos pessoas, que por motivos diversos, falta de dinheiro, problemas familiares, saúde..., se encontram excluídos do convívio social, não usufruindo de seus direitos. Os que estão à beira do caminho, em nossa sociedade, são todos aqueles explorados, empobrecidos, marginalizados, que não possuem emprego... Muitos desses esperam o mesmo de Jesus, mas o cego Bartimeu nos mostra um jeito novo de encarar a realidade. Embora impossibilitado de ver, ele ouvia; embora não tivesse claro a presença de Jesus, ele ousou gritar com todas as suas forças e foi capaz de enfrentar o abafo daqueles que o repreendiam, até mesmo daqueles que estavam mais próximos de Jesus, os discípulos. Assim atraiu o olhar de Jesus: “chamai-o”.
“Coragem! Ele te chama. Levanta-te”. A acolhida de Jesus é uma experiência que o faz sentir-se envolvido por um amor que vai além dos limites humanos e o faz romper com tudo aquilo que o aprisiona. O cego Bartimeu ousou o novo contra a miséria e o desespero. Ao atender o chamado, ele larga o manto e dá um pulo em direção a Jesus, essa é a atitude de todo aquele que faz um verdadeiro encontro, pois, o contato com Jesus desinstala a pessoa de suas seguranças, não podendo ficar acomodada diante de realidades em que a vida esteja ameaçada. Ao largar o manto, fica para trás o pouco de segurança, que eram as esmolas que lhe davam para sobreviver, e também o medo que o impedia de viver radicalmente a sua liberdade. Salta para uma nova visão da vida.
A fé que brota da atitude concreta do cego, de querer mudar de vida, faz com que ele se encontre com Jesus e recupere a visão e, num sentido de comprometimento, se põe a percorrer o caminho. O novo jeito de vivenciar a caminhada não é esperando de Jesus as respostas para os problemas, mas refletindo sobre os mesmos e se posicionando de certa forma a transformar da melhor maneira possível a realidade. Comprometer-se com as pessoas e partilhar as experiências da vida, nos ajudam a permanecer fiéis no caminho de seguimento ao Divino Salvador.

 
 
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