10. EXÍLIO DA BABILÔNIA
"Cícero Valdemir"

Tratar do exílio da Babilônia é colocar em evidência uma experiência do povo de Jerusalém, o que pede uma breve contextualização nacional e internacional daquele período, isto é, uma pequena análise de conjuntura e ainda o peso dessa experiência para o povo da Golá (do exílio), para os dispersos e para as gerações futuras. O que aconteceu de tão significativo para que tantos escritos surgissem, tantos conceitos fossem construídos e por que isso tem implicações até nossos dias? Enfim, o exílio, como fato histórico de Judá, é algo datado, mas quanto à experiência de fé é algo que atinge os nossos dias.

O EXÍLIO
O Exílio, que aconteceu no século VI aC, foi fruto da expansão territorial imperialista da Babilônia, mas antes da Babilônia convém fazer colocações sobre a Assíria.
Judá já havia se livrado da destruição Assíria por volta do ano 701, ficando somente sob o estado de vassalagem, o que aconteceu devida uma política interna estável e boas relações externas. Já no período próximo à invasão babilônica, a situação política de Judá estava um tanto instável. No século VII aC., Manassés tinha imprimido um regime opressor ao povo (2Rs 21, 1-18;21-16). Após a sua morte, o seu sucessor é assassinado por seus ministros ( 2Rs 19 – 26), o que causa grande tensão interna e proporcionará a intervenção do povo da terra, ou seja, os chamados Judaítas, que entronam uma criança de oito anos, Josias.
Isso implica o “povo” no poder. Josias instala uma reforma que visa a atender parte das reivindicações do povo da terra, contudo acontece nessa reforma uma centralização do culto e investidas militares, que desembocou na vitória dos egípcios em 609 aC. Nessa época Josias é morto, e os Javistas voltam a proclamar um rei, dessa vez é Jeocaz, que ocupou o trono por três meses, foi deposto pelo Egito (Jr 22, 10-12), que impõe Joaquim como rei,iniciando mais um período de opressão para o povo de Judá, exploração tributária e repressão, até sua morte em 598aC. Seu filho Joaquim é quem colherá o fruto de sua política externa e aparente diplomacia. Joaquim vai investir em uma política contra a Babilônia , o que vai ressaltar na ação Babilônica para evitar avanços do Egito, em 597 ac Jerusalém é desmilitarizada e cerca de 10 mil pessoas são deportadas (2Rs 24, 14-16). Por volta de dez anos depois Zedequias é o líder político imposto e que vai se rebelar contra os Babilônicos, resultando na destruição e desurbanização de Judá em 587 e conseqüentemente o segundo exílio, mas ao que indica Jeremias (52,30) aconteceu outro exílio em 582, chegando a somar 15 mil pessoas de Jerusalém na Babilônia.
Em Judá permaneceu, sobretudo, o povo do campo, pois a mesma (Judá) foi desurbanizada por grupos proféticos, litúrgicos e cantores. É desses grupos que surgirá a literatura renascente, ou seja, a leitura do exílio a partir dos que ficaram na terra. Não havia mais o Estado de Israel, havia grupos que viviam nos campos, o que traz uma semelhança com o sistema tribal. Por outro lado os moradores das cidades que ficaram estavam arrasados, tudo tinha sido destruído: o templo, os prédios, a estrutura urbana. Tudo estava em ruínas após 587, do povo das cidades é que surgem as lamentações, pois para os que serviam o templo restou a oração de lamentação (Jr 41, 4-7).
Há o grupo também dos que fugiram para o Egito ou outras partes, estes compõem a diáspora (2 Rs 25, 25-26), também a estes o texto de Segundo Isaías se dirige quando trata do segundo êxodo, (Is 48,21; 52, 12; 55,12). Já o povo do exílio não ficou distanciado, mas agrupado em uma só região. Provavelmente ficaram às margens de rios (Sl 137), e outros estiveram na corte da Babilônia. Com essas “regalias” de exilados, o povo de Judá pode se reunir e retornar a sua história de povo que assume como único Deus.
LAMENTAÇÕES
Entre os textos experienciais vê-se Lamentações. Lm 1 chora ao ver os pagãos invadirem o templo, ao ver os filhos de Javé morrerem de fome, é a dor nas entranhas, isto é, no mais íntimo da alma, mas confia no Senhor (Lm 1,20). A partir deste texto de Lamentações se tem a experiência do remanescente. É tempo de questionamento, tempo de chorar, de pedir perdão. Já Lm2, 19 mesmo perante a calamidade, o autor expõe a continuidade das vigílias de oração. É preciso clamar ao Senhor e apresentar-lhe a dor do povo. Em Lm (3,55-57) há a demonstração do reencontro, o Senhor ouviu novamente o clamor, e também o respondeu (Lm 3,57), não ignora o clamor do aflito. Esta é a experiência dos que ficaram ligados às ruínas do templo. Já entre o povo do campo a oração característica foi de clamor, ou seja, clamor por justiça e libertação, esta era sua oração dentro da opressão dos poderes de Judá, por isso, nesse grupo encontram-se textos proféticos, que apresentam a causa do exílio e chamam a atenção para a conversão do povo ao único Deus: Javé. É uma retomada da espiritualidade do Êxodo, entre os textos proféticos desta época encontram-se: Jeremias, que é uma escola profética, que parte do Norte para o Sul, também Sofonias proclamando que os pobres herdarão o reino, e Habacque que condena a espoliação do povo de Javé. Estes três profetas possuem seus discursos mais próximos do povo do campo. Tecem críticas ao templo (reforma Josiânica) e ao poder opressor dos monarcas.
A experiência dos remanescentes e dos exilados, ambas constituíram o evento memorial do exílio. E que está presente na literatura exílica:
Na Babilônia : Ezequiel, a possibilidade da ação de Javé fora da terra prometida; Dêutero-Isaías, texto da segunda deportação e anuncia um segundo Êxodo.
Releitura do Pentateuco, o povo da Golá relê o texto Pentateuco segundo os desafios do exílio.
Os remanescentes: Aqui se registram basicamente textos proféticos: Jeremias, Habacque, Sofonias, Abdias, Lamentações e releitura de alguns profetas como Miquéias.

 
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