26. O ENSINAMENTO DE JESUS E O CAMINHO DOS DISCÍPULOS
"Juliano Peroza"

Caros leitores(as) que acompanham mensalmente nesta página nossas reflexões bíblicas. Hoje nós queremos dar continuidade a esta proposta de, cada vez mais, compreendermos os ensinamentos de Jesus na Bíblia para podermos seguí-lo com mais firmeza e clareza.
E é nesse espírito que iniciamos nosso diálogo com o evangelho de Marcos 8,27 à 10,32. Encontramos aqui o que podemos chamar “os três anúncios” da paixão e da ressurreição de Jesus (8,30-33; 9,30-32; 10,32-34). Estes anúncios são muito importantes para entendermos os ensinamentos que Jesus recomenda aos discípulos perante a dificuldade que estes têm em aceitar o Messias como Servo Sofredor. Dizer que Jesus morreu e ressuscitou era algo de muito valor para os primeiros cristãos que O anunciavam. Era um resumo de sua fé, isto é, significava dizer que o projeto de Jesus não acabou na cruz pois o Cristo está vivo e se faz presente em meio à comunidade de fé. Por isso, para que os discípulos compreendam o verdadeiro sentido da ressurreição, esses anúncios são seguidos de ensinamentos que Jesus vai fazer.
Jesus faz com seus discípulos um caminho que inicia-se em Cesaréia de Felipe (Mc 8,27) até Jerusalém (10,32). Durante este caminho, muitas vezes Jesus depara-se com a incompreensão dos discípulos perante seu projeto. Já no início da caminhada Jesus quer fazer uma pequena avaliação sobre sua missão perguntando: Quem dizem os homens quem eu sou? E, após várias respostas, Pedro responde: Tu és o Cristo! Aparentemente a resposta de Pedro é cheia de convicção e demonstra certeza. Mas após ter escutado que Jesus deveria sofrer, morrer e ressuscitar, Pedro volta-se e começa a tentar convencer que isso não seria necessário. Jesus porém recrimina-o: “Afasta-te de mim satanás”(8,33). Isso indica que Pedro ainda não tinha compreendido as consequências do seguimento da missão do mestre. Pedro queria um messianismo triunfalista.
No capítulo 9,2 temos a transfiguração, onde Jesus encontra-se no alto de uma montanha com Moisés e Elias, transfigurando-se diante dos olhos dos discípulos. Aqui é o próprio Deus que manda o recado: “este é o meu filho amado, ouvi-o!” (9,7). É necessária a voz de Deus chamando a atenção para que se compreenda os ensinamentos de Jesus: ouvi-o! Logo mais adiante (em 9,14-28) Jesus chama atenção pela falta de fé de seus discípulos que foram incapazes de curar o “epiléptico endemoniado”: Ó geração incrédula! Até quando estarei convosco? Até quando vos suportarei? (9,18) E então Jesus expulsa o espírito impuro explicando a forma que se utilizou: “Essa espécie não pode sair a não ser pela oração”(9,29), ou seja, a oração, o discer-nimento, a clareza na proposta de Jesus é que permitirá que se possa realizar seus mesmos sinais. Mas mesmo depois do segundo anúncio da paixão, em que Jesus iria ser morto e ressuscitado os discípulos não entendem: “não compreendiam sua palavra e tinham medo de interrogá-lo”. E além de não entenderem Jesus, ainda ficam “discutindo sobre qual era o maior”! (9,34), isto é, estão tão confusos no seguimento que ficam discutindo sobre coisas secundárias e fúteis. Mais uma vez Jesus os repreende: “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos”(9,35).
Já no terceiro anúncio da paixão, “subindo para Jerusalém”, não é mais a incompreensão que toma conta dos discípulos, mas sim o temor, o medo: “estavam assustados e acompanhavam-no com medo” (10,32). A progressiva caminhada vai “cansando” os discípulos que, depois de tantas repreensões de Jesus, ficam atemorizados por não entenderem nada. Mas, após um longo silêncio Tiago e João fazem uma última questão: “Mestre, queremos que nos faças o que nós vamos te pedir”? “concede-nos tua glória”? E Jesus responde: “não sabeis o que estais pedindo”. Aqui a mentalidade dos discípulos está ainda ligada ao triunfalismo, onde imperam o poder e a hierarquia. Jesus condena mais uma vez esta mentalidade dizendo que seus discípulos não podem reproduzir as atitudes gananciosas dos poderos deste mundo: “sabeis que aqueles que vemos governar as nações às dominam, e os seus grandes às tiranizam. Entre vós não será assim…aquele que quiser ser grande, seja servidor” (10,42-43). E complementa: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos” (v.45).
No final, vemos um exemplo do verdadeiro discípulo, o cego de Jericó (10,46-52). Este tema vem encerrar tudo o que vimos antes: é necessário ver para seguir Jesus. O cego quer ver, por isso grita a Jesus com insistência. E eis que a fé é suficiente, não se realiza gesto algum. O cego curado põe-se então a seguir Jesus pelo caminho (10,52). Bartimeu aqui é o modelo do discípulo, incapaz de seguir a Jesus por si próprio, como Pedro, Tiago ou João que querem elevar-se acima dos outros. Isso mostra que Jesus cura seus discípulos e os ilumina para que se tornem capazes de seguí-lo!

 
 
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