12. DESERTO: TEMPO DE CONVERSÃO
"César Cordeiro de Barros"

DESERTO: LUGAR HISTÓRICO ONDE DEUS SE REVELA

Na Bíblia Sagrada o “deserto” é palco de muitas narrativas, caracterizando-o como lugar de solidão, abandono, sem vegetação, onde mora pouca gente, habitado por animais selvagens. Os seus perigos, como a fome, a sede, serpentes, também fazem parte deste cenário, especialmente no relato da peregrinação dos israelitas pelo deserto.
Em Êxodo 3,7-10, resultado de uma aproximação entre Javé e Moisés, nos é apresentada a bondade e o projeto de Deus para a libertação de seu povo: “Eu vi muito bem a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu clamor contra seus opressores, e conheço os seus sofrimentos. Por isso, desci para libertá-lo do poder dos egípcios e para fazê-lo subir dessa terra para uma terra fértil e espaçosa, terra onde corre leite e mel, o território dos cananeus, heteus, amorreus, ferezeus, heveus e jebuseus. O clamor dos filhos de Israel chegou até mim, e eu estou vendo a opressão com que os egípcios os atormentam. Por isso vá. Eu envio você ao Faraó, para tirar do Egito o meu povo, os filhos de Israel”.

DESERTO: CAMINHO PARA A REALIZAÇÃO DA PROMESSA

Deus se revela às pessoas mostrando-se conhecedor de sua situação, estando presente em sua vida. Esta presença inspira a construção de uma nova história, pois Deus assume a causa do oprimido e excluído, opondo-se à dominação e à desigualdade.
A finalidade da libertação é conquistar a “terra onde corre leite e mel”, ou seja, ir para um lugar onde exista alimento, água e dignidade para todo o povo. Contudo, ao sair da terra da opressão - Egito - o povo entrou no deserto e o atravessou, mostrando a necessidade de se enfrentar a aridez, as dificuldades e a tentação de voltar atrás.
O caminho no deserto só é caminho de conversão quando, libertos das garras da escravidão, o povo sente necessidade de viver a liberdade na nova sociedade, sem construir um novo sistema de opressão.

TENTAÇÕES DO DESERTO

Deus liberta seu povo da escravidão e o quer plenamente livre. Porém, o deserto é o espaço de conflito entre o ideal de vida e as incoerências vividas, ao mesmo tempo em que é momento de tomada de consciência daquilo que se deixa para trás no propósito de assumir um novo modo de vida:
· O povo no deserto, ao experimentar a fome e a seca, sente a tentação de voltar atrás, chora a saudade das cebolas e batatas do Egito;
· Mesmo estando no deserto, longe das sociedades divididas em classes, longe do Egito e das cidades-estado, o povo vive conflitos entre si;
· Sob a liderança de Moisés, o povo descobre que a libertação se conquista na organização do dia-a-dia. Ainda assim são fracos de empenho e participação;
· Confrontando-se com suas provações, dúvidas e tentações de seguir outros deuses, o povo buscava uma mudança de mentalidade e uma adesão a um único Deus que o levou a pensar mais nos outros.

QUARESMA: O DESERTO DO CRISTÃO

A quaresma é um tempo que a Igreja reserva para que reflitamos sobre nós e também sobre o mundo em que vivemos. É um momento especial onde todos somos convidados à penitência e à conversão.
Podemos comparar a nossa quaresma com o deserto que o povo de Israel atravessou para chegar até a terra prometida. Foi um tempo de sofrimento, de angústia, mas a esperança de libertação, de ir em busca de algo novo fez com que eles não desanimassem. Tentações não faltaram, mas o sonho maior, chegar na terra que corre leite e mel, não se apagou das suas mentes. O povo saiu de uma situação de opressão para buscar uma nova forma de vida, longe da dominação do egípcios.
Se olharmos um pouco mais atentamente para a nossa sociedade de hoje, veremos que muita gente vive uma situação parecida com a do povo israelita. A Campanha da Fraternidade deste ano, que tem como tema “Dignidade Humana e Paz” e o lema “Novo Milênio sem Exclusões” está preocupada com uma série de situações onde a dignidade humana não é respeitada. Há mendigos e índios sendo queimados vivos, crianças e adolescentes vítimas da prostituição, trabalhadores vivendo em regime de escravidão em fazendas e minas de carvão, crianças morrendo de fome e muitas outras situações que podemos presenciar no nosso dia-a-dia.
A quaresma é um excelente momento para pararmos e refletirmos sobre tudo isso. É mais do que nunca tempo de botarmos o pé na estrada e caminharmos em busca de algo novo. Javé, o Deus libertador, não quer que seu povo fique explorado. Ele anda junto com seu povo e aponta caminhos para a libertação.
No entanto, não poderemos ter medo de enfrentar o deserto. Ele é o caminho para se chegar à nova terra. O nosso mundo não pode mais ficar como está. Tem que haver uma mudança. Porém, não podemos ficar esperando que um novo Moisés apareça para nos carregar pela mão. Temos que converter o nosso coração e irmos adiante.


PARA REFLETIR

· O que é “libertação” para os trabalhadores das cidades, os agricultores, os desempregados, índios...?

· Como percebemos a presença de Deus em nosso ‘deserto’, luta e caminhada? É uma presença libertadora? De que maneira?

· Que ação concreta podemos fazer para amenizar o sofrimento das pessoas que têm sua dignidade violada

 
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