24. A MULTIDÃO NÃO COMPREENDE JESUS
"Cláudio Bertotto."

Quero começar nossa reflexão fazendo uma pergunta a você, caro leitor. Pergunta simples, que com um pouco de reflexão você responderá: Com que objetivo e em quais momentos as pessoas mais procuram a Jesus Cristo?
Não tenha tanta pressa em responder. Eu lhe convido a darmos uma olhada no Evangelho de São Marcos. Talvez Ele nos dê uma resposta.
Marcos demonstra que as multidões procuravam Jesus a todo momento e que elas se constituíam de pessoas necessitadas, que buscavam algum tipo de ajuda. Eram pobres, excluídos, doentes, endemoninhados, cegos, surdos-mudos. “A tarde, depois do pôr-do-sol, levaram a Jesus todos os doentes... A cidade inteira se reunia em frente a casa. Jesus curou muitas pessoas de vários tipos de doenças e expulsou muitos demônios...”(Mc 1, 32-34). Por atender aos necessitados, a procura por Jesus aumentou tanto, que ele não podia entrar em certos lugares que a multidão já vinha pedir ajuda. “... Jesus já não podia entrar publicamente numa cidade: ele ficava fora, em lugares desertos. E de toda a parte as pessoas iam procurá-lo.” (Mc 1,45). “Iam de toda a Região, levando os doentes deitados em suas camas para o lugar onde ouviam falar que Jesus estava. E onde Ele chegava, tanto nos povoados como nas cidades ou nos campos, colocavam os doentes nas praças e pediam que pudessem ao menos tocar a barra das roupas de Jesus. E todos os que tocaram ficaram curados. (Mc 6, 55-56).
Em todo o evangelho de Marcos encontramos relatos de um povo necessitado e em contrapartida, atitudes de amor e salvação de Jesus para com seu povo.
JESUS AJUDA, MAS
TAMBÉM ENSINA

É bom observarmos que nas atitudes de Jesus para com a multidão, Ele não permanecia na cura e na ajuda aos necessitados, como uma espécie de assistencialismo. Seu modo de agir ia além, não se contentava em dar de comer e curar os doentes. Mais que tudo, ele ensinava e exigia uma adesão ao seu projeto. “... toda a multidão ia ao seu encontro. E Jesus os ensinava” (Mc 2,13). “Jesus começou a ensinar de novo às margem do mar da Galiléia. Uma multidão se reunia em volta dele. (Mc 4, 1). “Em seguida, Jesus chamou de novo a multidão para perto dele e disse: ‘ escutem todos e compreendam...’ (Mc 7, 14). “Novamente o povo acorreu a Ele e, segundo seu costume, os ensinava” (Mc 10,1).
Certo dia, um homem que com certeza vivia nessa multidão, se aproximou de Jesus e pediu um conselho: “Bom mestre, O que devo fazer para herdar a vida eterna?” (Mc 10, 17ss). Jesus primeiro ensinou a observar os mandamentos, e quando já estivesse fazendo isso, propôs que vendesse tudo, entregasse aos pobres e o seguisse. “Depois dessas palavras, o homem franziu a testa e partiu triste, pois era muito rico. (Mc 10, 22 ).
Depois de vermos esses exemplos de Jesus ensinando, temos mais clareza sobre o que é seguir Jesus. Não basta ouvir o que Ele fala, mas precisamos pôr em prática. Nós também devemos acolher e ajudar aos necessitados.

MAS A MULTIDÃO
PREFERE BARRABÁS

Agora me vem à mente outra pergunta. Se Jesus era bom, ajudava aos necessitados, acolhia a todos e ensinava como chegar ao Reino de Deus, por que a multidão preferiu Barrabás à Jesus quando Ele estava sendo julgado por Pilatos? (Mc 15, 11).
O escritor Rubem Alves, analisando o modo como o povo geralmente age, pode nos ajudar. Segundo ele, o povo sempre está à procura de heróis, de ídolos, de super-homens que resolvam seus problemas, mesmo que possa ser enganado. E quando esse herói exige um compromisso ou uma atitude do povo, ele é abandonado por este povo. “O povo sempre preferiu os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras. As mentiras são doces... Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo os interesses da coletividade. Mas uma das característica do povo é a facilidade com que é enganado”.
Aqui podem estar as respostas para nossas perguntas. A multidão, ou o povo, não entendeu a proposta de Jesus e nunca o procurou para participar e ajudar na construção do Reino de Deus, mas procurava-o buscando resolver seus problemas individuais e imediatos. Vejamos: enquanto Jesus curava e dava de comer, ele era amado e aplaudido. A partir do momento que Ele exige mudança de vida e um compromisso, passando a ensinar que nós também devemos seguí-lo para lutar e denunciar as injustiças, o abandonamos, como fez o homem rico, e preferimos Barrabás.
Hoje não é diferente. Basta alguém aparecer com um discurso bonito e com milhões de promessas, que o povo já corre atrás buscando “tirar uma casquinha”. E mais, acredita que ele irá salvar a todos. O Evangelho de São Marcos nos ensina que Jesus nunca quis ser um herói ou um ídolo, e resolver todos os problemas da humanidade. O que ele quis foi nos demonstrar que, a partir da prática do amor, da justiça e da caridade, podemos chegar ao Reino de Deus.
Estamos próximos de celebrar mais uma Páscoa, e uma última pergunta que deixo a você é: com que objetivo vamos celebrar a memória da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo este ano?

 
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