|
|
Ó
Deus, Envia-nos Loucos!
Os que se esquecem, os que se comprometem a fundo,
os que amam além das palavras, os que se entregam
verdadeiramente, até o fim…
Precisamos de LOUCOS, de ilógicos e de apaixonados,
dos que sejam capazes de se atirar na insegurança,
no desconhecido cada vez mais medonho da pobreza,
dos que aceitem perder-se na massa anônima,
sem desejo nenhum de fazer disso pedestal.
Dos que não utilizam as superioridades que adquiriram,
para seu próprio serviço.
Senhor, Vós bem sabeis que o salto nem sempre consiste em
romper com o meio ou com o nível de vida, mas numa ruptura
muito mais profunda, consigo mesmo, com o eu ainda egocêntrico,
que tudo havia
dominado até então.
Precisamos hoje de loucos.
Daqueles que preferem um estilo simples de vida, libertadores
eficientes do proletariado, amantes da paz, puros sem compromissos,
decididos a nunca trair, desprezando a própria vida, resolvidos
à abnegação em plenitude.
Capazes de aceitar qualquer trabalho, de ir a qualquer lugar,
por disciplina, ao mesmo tempo livres e obedientes, espontâneos
e tenazes, doces e fortes.
Senhor, envia-nos loucos. Amém!
(J.L. Lebret, França)
Irmãos
e Irmãs em Cristo!!!
Retomando um pouco o nosso encontro passado aqui na página
bíblica, vimos que a multidão não compreende
Jesus, porque esta busca resolução nos problemas individuais.
E a partir do momento que ele exigia mudança de vida, havia
o abandono. Partindo disto, neste encontro veremos que também
sua família não O compreende, “…os seus
parentes foram segurá-lo, porque diziam: ‘Enlouqueceu’”
(Mc 3,21). Vendo a atitude de seus parentes, podemos nos perguntar:
“quantas vezes somos chamado(as) de loucos(as)?”, principalmente
as pessoas que assumem uma proposta de vida radical, deixando tudo
para seguí-Lo, como também os/as catequistas, entre
tantas outras pessoas que dedicam sua vida para que haja esperança
na comunidade. Lembrei-me aqui de um salmo composto por J. L. Lebret,
que tem como tema: “ Ó Deus, envia-nos Loucos”,
loucos para aceitar qualquer tipo de trabalho e ir a qualquer lugar,
sempre num sentido de vida simples, amando a paz. Este salmo retrata
a opção de vida de Jesus, o qual nem a sua família
deixou de chamá-lo louco. Ela tenta “impedir”
que Jesus prossiga com a sua missão, quando julga que Ele
está fora de si, devido à multidão que o acompanha.
Este aglomeramento da multidão suscita uma preocupação
dos parentes e sua intervenção pode ser motivada pela
sua atividade e seu modo de comportar-se, que fugia aos esquemas
do molde comum. Os familiares temem que esta maneira de agir possa
comprometer o nome da família, e decidem tomar o controle
da situação.
A Casa
Vemos nos textos de Mc 3,20-21 e Mc 3,31-35 que Jesus se encontra
dentro da casa, seus parentes do lado de fora e a multidão
está ao seu redor ouvindo-o. Estão reunidos os discípulos
e discípulas em torno de Jesus, como também as multidões,
que são pessoas do povo, capazes de deixar tudo e seguí-lo:
são os aleijados, coxos, pobres, doentes que estão
“como ovelhas sem pastor (Mc 6,34)”.
Participar da casa é participar do banquete da vida, da aproximação
com o outro como espaço de diálogo e compreensão.
Para poder entrar na casa é preciso romper com o sistema
de opressão que há em nossa sociedade, na medida em
que faço do outro instrumento da minha vontade e o coloco
em disputa com os demais. A casa é o lugar apropriado para
desenhar a proposta que Jesus deseja anunciar e promover o sistema
de relação social.
“…Um profeta só é desprezado em sua pátria,
em sua parentela e em sua casa” (Mc6,4) . As pessoas capazes
de compreender a missão de Jesus são aquelas que fazem
a experiência d’Ele. Os mais próximos se afastam
diante da missão de Jesus, enquanto os mais distantes se
aproximam d’Ele e de sua missão. Aproximar da missão
é encontrar-se dentro da casa e reconhecer em Jesus a presença
do Reino de Deus. É preciso compreender os gestos e não
ter o coração endurecido. Os que estão fora
da casa são os adversários que querem interromper
a missão, concordando com uma ideologia que domina as pessoas
e que controla o sistema opressor.
No relato de Marcos 3,20-21 encontramos que o “estar na casa”
é o principal foco e eixo de partida, enquanto que nos versículos
31-35, o grande eixo é a pergunta: “ quem é
minha mãe e meus irmãos?” Jesus se sente próximo
e familiar a todos que se deixam envolver por seu projeto. O grau
de parentesco é como que um título para que se possa
fazer parte da nova comunidade, que requer acima de tudo fidelidade.
Enquanto anteriormente a preocupação da família
era a incompreensão da missão de Jesus, que tinha
a família como eixo estrutural, agora Jesus nos diz: “…eis
a minha mãe e meus irmãos. Quem fizer a vontade de
Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe”(Mc
3,34-35), procurando derrubar a ordem social e provocar ruptura
com sua família de sangue. “Chegaram então sua
mãe e seus irmãos e, ficando do lado de fora…”(Mc
3,31) enquanto que a multidão se encontra sentada em torno
do lado de Jesus “(Mc 3,32).
Jesus se recusa a aceitar quem não aceita sua missão
!!!
Perante uma atitude de vida incoerente, na qual o projeto de Deus
não é assumido e a discriminação se
torna mais forte, Jesus faz um questionamento: “quem é
minha mãe e meus irmãos?” ( Mc 3,33). Se eles
não conseguem aceitar a missão de Jesus, Este também
não o reconhece como parente. É preciso ser obediente
a Deus, porque no centro está o ser humano e suas necessidades.
Estar sentado à sua volta é estar atento aos seus
ensinamentos “Enquanto caminhavam, Jesus entrou num povoado,
e certa mulher, de nome Marta, o recebeu em sua casa. Sua irmã,
chamada Maria, sentou-se aos pés do Senhor, e ficou escutando
a sua palavra. Marta estava ocupada com muitos afazeres. Aproximou-se
e falou: «Senhor, não te importas que minha irmã
me deixe sozinha com todo o serviço? Manda que ela venha
ajudar-me!» O Senhor, porém, respondeu: «Marta,
Marta! Você se preocupa e anda agitada com muitas coisas;
porém, uma só coisa é necessária, Maria
escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada.»”(Lc
10,38-42). É a unidade em Jesus que se deve fazer evidente
numa opção de vida, numa instauração
de uma família, como também na vida; viver a vida
com adesão ao projeto de Deus e na construção
de um mundo novo, no qual a esperança nos mova para frente
para podermos chegar “…a uma terra fértil e espaçosa,
terra onde corre leite e mel”.
O evangelista Marcos nos deixa claro aqui que o importante é
entrar na casa e conversar, dialogar e participar da vida com o(a)
outro(a). Assim, a comunidade do discipulado será a nova
família que queremos formar. |
|